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VIAGEM NA MADRUGADA

RORY GALLAGHER – Live at Montreux (1975, 77, 79, 85, 94)

2006 – Brasil, sexta-feira de uma noite quente de verão (aqui parece ser sempre verão, mesmo que seja outra estação). Após um dia cheio exaustivo e permeado de compromissos, que fora formatado como num complô de acontecimentos que não me permitiram galgar os passos ao aparelho de dvd para assistir minha última aquisição. O produto ganharia só os raios do laser por volta da 1h00 da manhã quando, já de volta a minha residência e, depois de meus emails já estarem verificados, os trabalhos pré-organizados com a agenda de sábado pré-estabelecida, pude a duras pernas e já sonolento, ligar o aparelho de dvd e me posicionar horizontalmente na cama para iniciar ao meu esperado sono, depois de dar uma passada superficial pelo conteúdo do produto, captando alguns excertos…

1975 – Suíça. Há 31 anos atrás, as margens do lago Genebra e com as montanhas cobertas por neve, que Rory Gallagher era registrado em vídeo pela 1ª vez das 5 outras que se seguiriam no Festival de Montreux, criado por Claude Nobs em 1967. Tattoo Lady abre o show mostrando que Gallagher não poupa energia. Ele parece subir ao palco Casino já com o jogo ganho, enquanto a platéia aplaude freneticamente do início ao fim em comemoração pelo show. Mesmo assim, esbanja técnica de slide com sua guitarra – a primeira, comprada aos 15 anos – plugada diretamente num combo Fender. A influência do bluseiro Muddy Waters no guitarrista irlandês – que chegou a acompanhar Waters nos registros de suas London Sessions – aparece nos vocais de Garbage Man, que também dá a deixa para improvisos seus e de Lou Martin ao piano. Sua fala rápida liga as palavras, tanto nas músicas, como quando apresenta uma canção ou sua banda – que além das tecladas Martin, traz Rod De’Ath nas baquetas e o voraz Gerry McAvoy nas quatro cordas. A rebeldia roqueira que arrepia a espinha faz sentido em Cradle Rock, que engata numa conversa de baixo e guitarra que se transforma no clássico bluseiro I’m Tore Down, evidênciando a sintonia entre os membros da banda. Laudromat, hit que abre o primeiro solo de Gallagher, fecha com tamanha energia que, a neve das montanhas de Montreux nunca mais permaneceria da mesma maneira. O quê garante a participação do irlandês nos próximos anos.

1977 – O mesmo palco de dois anos atrás recebe Rory Gallagher que transforma-o num grande playground. Sua guitarra com a pintura descascada é o seu brinquedo preferido. I Take What I Want pega a platéia de assalto em um ritmo feroz. Gallagher toma o palco por completo: corre de ponta a ponta, troteia, dança a la Chuck Berry, incita a platéia se aproximando da beira do palco, solando enfurecidamente. Os movimentos de mão na guitarra parecem saltar aos olhos, principalmente em músicas com pegada forte como Calling Card e Boght and Sold. É perseptivel o rosto suado do guitarrista enquanto entoa os versos de A Million Miles Away. Gallagher aproveita o solo de Secret Agent para mostrar como se solfeja com a guitarra. Do You Read Me é o pico de uma catarse digna de um showman: simples, carismático e persuasivo ao mesmo tempo a ponto deixar a platéia enaltecida gritando: Rory! Rory! Rory!

1979 – O grito primordial introduz o boogie Shin Kicker que dá o índice de que a noite no Casino seria quente. Sem o piano de Lou Martin, passando para o formato trio com Ted McKenna na bateria e mantendo McVoy no baixo, o guitarrista preenche todo o espaço com sua técnica impecável, aliando a uma criatividade infinita e transformando cada solo numa experiência única. A voz de Gallagher remete aos vocais dos bluseiros do Mississippi quando fica sozinho no palco empunhando um dobro para a acústica Too Much Alchool. A levada country de The Last of The Independts mostra um pouco das demais influências que Gallagher ingeriu ao longo de sua formação autodidata. É com a guitarra plugada num Marshall, cheia de fuzz e phaser que ele explora o máximo de feedback durante o show. Em Shadow Play o guitarrista desce até a platéia causando máxima euforia, brinca com a câmera de filmagem e incita os presentes para cantarem virando o seu microfone para eles e cria uma interatividade hipnótica sem exclusões entre público e banda. As artimanhas de entretenimento do músico são exploradas quando este larga a guitarra rosnando efeito sobre o chão do palco, depois puxando-a pelo cabo, abanando-a com uma toalha e, para em seguida, tomá-la de volta aos seus braços e fechar em grande estilo o seu último show no festival nos anos 70.

1985 – Dez anos após a primeira apresentação de Rory Gallagher no festival suíço, o músico volta com a mesma garra e com excesso de experiência para realizar um show mais intimista e com solos mais introspectivos. O guitarrista abusa de efeitos, mas não se rende aos timbres dos instrumentos sintetizados da década perdida, ainda empunhando sua velha stratocaster, sua marca registrada, plugada em Marshalls cada vez mais potentes. Enquanto McAvoy utiliza de um baixo mais limpo. Os tambores e pratos agora servem à batida forte e precisa de Brendan O’Neil. Em Banker’s Blues Gallagher toma os lamentos de Big Bill Broonzy, enquanto é acompanhado por um gaitista. Já Philby, o guitarrista se apropria de uma electric sitar dando um tempero oriental ao seu rock setentista. O guitarrista se despede do festival mostrando suas armas num final esfuziante da pauleira Big Guns.

1994 – “Let’s Gonna Work!” com essa frase que Rory Gallagher dá início a sua última apresentação em Montreux, no grande palco do Stravinski Auditorium. Os músicos que fazem a cozinha neste show – David Levy no baixo e Richard Newman na bateria – já não são tão viscerais quanto os antigos companheiros de palco, que ajudaram a fomentar o som do guitarrista nas décadas passadas. A incapacidade de errar dos músicos deste show é incontestável. Provavelmente é essa extrema precisão e uma aparente passividade na execução das músicas que não se faz equiparar aos delírios musicais promovidos pelos companheiros do guitarrista dos anos anteriores. Mas para anular essa perspectiva a guitarra de Gallagher está lá no topo, impregnada de alma, das dores e dos excessos dos anos de estrada, a ponto de fazer fidelíssimos amantes de Les Pauls desejarem momentos de prazer com uma Fender, ainda mais quando ele pega nos braços uma Telecaster envenenada com um captador Humbucker. No palco, Gallagher toma todas as atenções para seu refinado estilo, baseando-se nos principais clássicos de sua carreira e repleto de blues para deleite da platéia. Em um dos momentos acústicos do show, o músico protagoniza uma jam com o banjo do texano Béla Fleck, e sintonizam a tradicional Amazing Grace, a clássica bluseira Walking Blues para culminar em Blue Moon of Kentucky. Para finalizar Claude Nobs sobe ao palco com sua gaita e, juntamente dos outros músicos que já haviam subido ao palco, para fechar com uma jam insana do clássico I’m Ready de Muddy Waters, o que se tornou o canto do cisne de Rory Gallagher no Montreux Jazz Festival.

2006 – Brasil, os primeiros raios solares começam a se infiltrar pelos buracos da janela. Extasiado não consigo dormir. As performances de Rory Gallagher no recém lançado DVD duplo, tiraram-me do estupor extremo e me dispondo a ouvir toda a discografia deste mestre da guitarra novamente, logo após os vários bônus que acompanham este impagável registro. Entre a agenda do dia e todo o folk, blues, jazz, country, skiffle e rock especialmente destilado nas cordas da guitarra de Gallagher me posto na vertical ‘pronto para mais uma e espero que este Live at Montreux esteja pronto novamente pra mim’.

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O MELHOR GUITARRISTA DESCONHECIDO DO GRANDE PÚBLICO (ou RORY GALLAGHER)

RORY GALLAGHER
Calling Card
(1976)

Dentre os meus guitarristas preferidos e que alcançaram destaque mundial pelas suas particularidades – Jimi Hendrix pelo controle completo do instrumento; Jimmy Page pela utilização de timbres, camadas sonoras, arranjos e afinações; Eric Clapton pelo seu poder de traduzir o blues em diversos gêneros, além de ser um autêntico mestre bluseiro branco –, é o guitarrista irlandês Rory Gallagher, desconhecido do grande público, que corresponde ao amalgama que geraria se os três primeiros fossem liquefeitos.

A inventividade de Rory Gallagher ultrapassa os limites em Calling Card, lançado em 1976, é o seu oitavo lançamento solo e, o quinto com a formação que incluí Lou Martin ao piano, Rod de’Ath na bateria e Gerry McAvoy no baixo. Este álbum foi o canto do cisne para essa formação que mais se entrosou com Gallagher, potencializando o som do guitarrista.

Algumas mudanças no processo de composição de ‘Calling Card’ diversificaram o rock bluseiro dos primeiros álbuns. ‘Moonchild’ poderia figurar perfeitamente no repertório do Deep Purple. Não por acaso, o baixista da banda, Roger Glover, é o responsável pela produção do álbum. Sua participação se deve ao fato de que Gallagher, produtor de seus álbuns anteriores, buscava novos caminhos para expandir suas idéias baseadas na tradição folk-bluseira.

Essa busca fica evidente na faixa título, ‘Calling Card’, que abusa de uma levada jazz para deixar a guitarra conversar com o piano. Já ‘Contry Mile’ carrega uma potencial surpresa. Embora haja no álbum canções com ascendência jazzística, é no ritmo boogie da canção citada que percebo como ela se encaixaria na voz de Billie Holiday, pois consigo recriar na minha mente a voz da diva do jazz em um arranjo da época em que Holiday estava na Verve. O mais engraçado é que a rouquidão de Rory Gallagher que fez essa sensação tomar forma. Além da surrealista impressão, a música se destaca também pelo excelente timbre único no solo do slide de Gallagher.

Apesar dessas inovações, ele também sobe aproveitar de suas influências tradicionais para criar composições como o single ‘Edge In Blue’, que chegou ao topo da parada americana com seu início suave, e até um pouco piegas, que se transforma numa bela levada country. Os dedilhados de ‘I’ll Admit You Gone’ e ‘Barley and Grape Rag’ retratam a maestria do guitarrista na utilização da técnica sem perder a sensibilidade.

O lado roqueiro do guitarrista não fica para trás neste álbum. Da abertura com ‘Do You Read Me’ que já provoca arrepios na introdução guitarra e bateria. Enquanto ‘Secret Agent’, a faixa mais interessante do disco, revela um intrincado riff que serve como documento de que a guitarra ditou a revolução na música do século passado. Rory cria uma ótima melodia no solo da funkeada ‘Jack-knife Beat’, lembrando muito a mão-lenta de Eric Clapton.

Calling Card ainda traz em sua versão digital mais duas bônus: os power-rocks ‘Rue the Day’ e ‘Public Enemy’ – esta apareceria no álbum Top Priority (1979), mas que fora gravada primeiramente em San Francisco com a formação deste álbum – não ficam aquém da seleção do original. Esse é para deixar no repete e degustá-lo por horas.