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Um sofá e o bandolim

O bandolinista Hamilton de Holanda soltou em 2007, o álbum Íntimo, um retrato de sua personalidade mais introspectiva.

As 12 viagens apresentam o músico sozinho debulhando lentamente seu instrumento com carinho, técnica, pegada precisa e estilo em sons escolhidos à pinça, dentro do vasto repertório da música brasileira. É obvio que o samba e choro ganham destaque em uma forma tácita e arrojada. Canções parecem se unir desde o início do álbum, com “Samba do Sonho”, até seu fim, em “Feitiço da Vila”.

O maior destaque fica para “As Rosas Não Falam”. Hamilton consegue retratar o brilho da melodia original, aliando uma interpretação comovente, que parece ser o músico parte de seu instrumento, quando a palheta passa por entre as cordas como se o vento passasse suavemente pelas flores, produzindo uma sonoridade perfumada, sugerindo o cheiro de rosas no ar.

Gravado em quartos de hotéis e casas nas cidades do Rio de Janeiro, Paris, Cayenne e Zuriche, as músicas demonstraram a introspecção do músico com seu instrumento: soando nostálgico em “Amor, saudade Amor”, que é sentida a cada nota, numa transpiração contida a cada acorde. “Senhorinha” soa como um êxtase astral, enquanto uma meditação infinita é instaurada na seqüência de “Beatriz”, “Gratitude” e “Luiza”.

Hamilton de Holanda é considerado mundialmente como um dos melhores instrumentistas do bandolim. E a prova unânime da qualidade técnica e sentimental, fazendo jus ao título recebido, pode ser comprovada em Íntimo, pois seu resultado é positivo e avassalador.

Acesse o site do músico para ouvir algumas das músicas de Íntimo.

Momento duas vozes: Hamilton de Holanda e o violonista Yamandú Costa, ao vivo no Ibirapuera.

Momento Transcontinental: HH junto aos músicos J0hn Paul Jones (eterno baixista do Led Zeppelin) e Mike Marshall.

O nascimento de uma diva

Parceria entre Aretha Franklin e Atlantic Records deu ao mundo a Rainha do Soul

Vivemos em uma época que gravadoras não são consideradas relevantes para a maioria dos artistas. Basta que o músico componha e grave de qualquer forma sua arte que, milagrosamente, ao disponibilizá-la pela web, a multiplicação dos pães se faz presente. Mas, há muito tempo atrás, em um país ou galáxia distante, existiram gravadoras que se preocupavam com artistas, e com o que era produzido. Aretha Franklin é um dos exemplos mais plenos de visualizar tal influência, que pode gerar frutos ou apodrecer um pomar inteiro.

Quando a cantora botou os pés na Atlantic Records, ela já havia labutado por 10 anos através da Columbia, que insistia num repertório de standards de jazz e levadas pop que limitavam a essência e potência messiânica da jovem estrela. A gravadora não sabia o que queria da cantora. Com isso, Aretha foi gravando álbuns que não eram ruins, mas não tinham uma direção, sem representar todo o potencial da força que ela poderia render. Foi a partir das gravações feitas para a Atlantic Records, em 1967, que Aretha passou a ser conhecida como a Lady Soul. À vontade para explorar seus dotes vocais, de pianista e compositora, Franklin pode soltar diva que habitava em seu ventre, e explorar todo o DNA gospel que carregava. O produtor Jerry Wexler teve foi hábil artesão ao lapidar o que Aretha tinha de melhor a oferecer para a música. Desta “parceria” saíram álbuns essências para compreender a música soul de vocais femininos, além de aproximar vertentes que estavam despontando na segunda metade dos sixties: folk e rock. Suas versões para Beatles, Rolling Stones, Simon and Garfunkel, além dos clássicos soul, estão concentrados nesta fase.

I Never Loved A Man The Way I Love You, estreia da cantora na gravadora de Ahmet Ertegun, em 1967, não só é um grande álbum. Extremamente bem trabalhado quanto a composições – ora próprias, ora releituras definitivas para canções de Ray Charles, Otis Redding e Sam Cooke – com execução primorosa e produção catalisadora, contém seu maior sucesso popular, a releitura de Redding se tornou um grito feminino, e não feminista, titulado apenas ‘Respect’. Dividido entre gravações com experientes músicos sulistas em estúdios no Alabama e Nova York, o registro é um marco na carreira da cantora, que soube tramitar entre o soul e o r&b com elegância e destreza, como se fosse uma cortesã reinando sobre uma cama bem feita em lençóis de seda.

Em 1968, ao registrar Lady Soul, ela se tornou popular sem precisar soar artificial, ou bajuladora de outras vozes. Em plena luta pelos direitos civis, a cantora foi suavemente impactante, como um sit-in, na leitura de People Get Ready, hino de Curtis Mayfield, provando que sua qualidade profissional ultrapassava as barreiras da segregação, e passando a ser cultuada, como uma das grandes representantes da música americana. Aretha registrou o álbum apoiada por um exército: o capitão Wexler seguido do engenheiro de som Tom Dowd, músicos como Bobby Womack, King Curtis, Spooner Oldham e Eric Clapton, além de arranjadores, grupos de backing vocals e sopros metalizados como as trombetas do paraíso fizeram da experiência um deleite para a posteridade. A garota de Memphis, que começou a cantar gospel em Detroit e que se tornou uma rainha do preciso estilo do Harlem, registrou em Lady Soul sua obra definitiva.

Mas, como todas as coisas tendem a passar, o toque de Midas de Aretha Franklin & Atlantic Records durou até um pouco mais da primeira metade dos anos 70, quando o vento da mudança bateu sobre as paredes do estúdio e toda a beleza cintilante de seu canto foi abafada por canções pop pobres em originalidade e timbragem. Ironicamente, essa fase ingrata coincide com Aretha pipocando por outros selos. Não havia mais o mesmo brilho captado em sua ‘Era Atlantic’. Com o advento da disco music e o punk pichando as colunas sagradas do rock, todo o soul e gospel da cantora foram relegados ao segundo e terceiro planos das gravadoras. Mas ela deixou o seu legado e muitos artistas souberam sorver deste banquete.