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rock psicodélico

Saindo uma quentinha: Warpaint Live

Um ano após o lançamento de Warpaint, que quebrou o hiato de sete anos sem material novo, a banda Black Crowes retorna com o conteúdo do álbum estendido e ao vivo.

O dia 28 de Abril marca, lá fora, o lançamento de Warpaint Live ao mercado da audição, seja ele físico ou virtual, embora sabemos que nas vias digitais, a possibilidade do lançamento está relacionada ao seu vazamento. No formato físico, com edição pela Eagle Records, são dois CD’s que incluem as interpretações viscerais e apaixonadas da atual turnê. Os registros foram retirados das apresentações sold out que a banda fez em Los Angeles. A primeira bolacha está todo o material de Warpaint devidamente retrabalhado para o palco, com as sempre viagens musicais que uma boa jam band sempre preza por realizar. Na outra parte do pacote figuram duas autorias que ajudaram os irmãos Robinson a serem reconhecidos como compositores do mais precioso rock and roll clássico promovido nos anos 90, aliado de vários covers feitos nos anos 60 e 70, como, por exemplo, Torn and Frayed, peça fácil nas apresentações do grupo desde o seu início, uma viagem folk da obra-prima dos Stones, Exile On Main St. (1972). Um registro em DVD com o conteúdo das apresentações da Euphoria or Bust Tour – que celebram o álbum Warpaint e o debuto em vídeo para os novos integrantes: o tecladista Adam MacDougall, e o guitarrista Luther Dickinson – está prometido para sair ainda este ano.

Warpaint Live pode não ser uma grande notícia de lançamento. Pois, não só por parte da atual desvinculação de música através do suporte físico. Mas, devido há dois fatores protagonizados pela banda: os próprios membros incentivaram os fãs a gravarem seus shows desde o início da carreira, causando um conglomerado de material ao vivo disponível pela internet; e, recentemente, a criação do Live Black Crowes, site específico para venda de downloads dos shows, há material disponível desde a turnê de 1996, que promoveu o álbum Three Snakes and One Charm, do mesmo ano. Mas, é óbvio, que Warpaint Live ganha pontos através de uma boa mixagem e masterização de estúdio, pois a maioria das gravações que pipocam pela internet não passaram pelo tratamento de uma boa mesa de som.

Quanto ao DVD, previsto para sair dia 30 de junho, este sim, pode surpreender. Não só por existir um registro visual da atual formação, mostrando seu excelente entrosamento, mas para atualizar a experiência do incrível vídeo Freak ‘n’ Roll… Into the Fog (2006) que, dentro de um ‘Olímpo do Rock’ credenciado como Fillmore, em São Francisco, a banda registrou a volta, mesmo que não por muito tempo, da criatividade e personalidade musical ímpar de Marc Ford, o guitarrista que projetou os solos mais doidos e setentistas que uma banda voltada para as raízes do rock clássico poderia almejar.

Abaixo, uma amostra da Euphoria or Bust Tour:

E a turnê anterior, All Join Hands, que gerou o DVD

Freak ‘n’ Roll …Into The Fog:

 

 

Leia a resenha do álbum Warpaint publicada aqui no Discoteclando.

 


O Choque da Maturidade

Oasis deixa a obsessão Beatle de lado e, com diversas influências, consegue capturar sua própria alma em seu álbum mais pesado e psicodélico

Até hoje não encontrei nenhum sinal de grandeza nos álbuns do Oasis. Por mais que se tente, ouvir um álbum completo deles sempre empipocava no meio de campo. E boas idéias sempre se perdiam em meio ao caos da seleção musical, ou de insuficiência regularidade qualitativa das composições, e o que me parece mais certeiro: falta de maturidade. A pretensão da banda realmente soa bem maior do que sua qualidade sonora e o álbum Dig Out Your Soul, não escapa a risca, embora traga muitos pontos a favor da banda, indicando que se houver um esforço para que ela soe como é o intento, isso se realizará ao longo dos demais trabalhos. Talvez isso soe como um sinal do amadurecimento, fato que os irmãos Gallagher e sua trupe careciam totalmente, e agora, talvez só em parte, e por mais fãs, críticos e até mesmo alguns entes da banda que reclamem do declive de qualidade dos álbuns que se seguiram desde os dois primeiros álbuns – Definitely Maybe e (What’s the Story) Morning Glory, lançados em 1994 e 1995, respectivamente – vejo uma busca interessante para que o Oasis ache seu caminho na história do rock, invés de tentar ser os Beatles, e acabar saindo como o R.E.M.

Algo que predominava nos álbuns da banda que se diferencia em Dig Out Your Soul é a bateria. Aqui ela realmente parece ser tocada por um músico eficiente, no caso Zak Starkey, filho do básico Ringo Starr que teve a inteligência de mandar seu filho ter aulas de bateria com ninguém menos que Keith Moon, o octópode alucinado que comandava a cozinha do The Who. Não que Starkey levou sua quase clonagem do estilo Moon de tocar para o Oasis, isso seria um equivoco, e como o rapaz parece ter os parafusos funcionando, fez um trabalho que deixou as composições com uma vitalidade incrível. Starkey conseguiu que a bateria não soasse como uma criança tímida e descoordenada tentando aprender seu instrumento durante as gravações, e não demonstrando nenhum tipo de habilidade ou energia para enriquecer as composições, como foi o caso das demais baterias dos álbuns anteriores do Oasis.

Outro fato que também faz diferença em Dig Out Your Soul é a presença marcante dos demais membros fazendo o papel de banda. O guitarrista Gem Archer e o baixista Andy Bell são músicos no calibre necessário para uma boa empreitada rock ‘n’ roll como pretende os irmãos Gallagher. Para comprovar tanto a contribuição de Starkey, quanto dos demais, é só prestar atenção nos timbres das guitarras e na bateria épica de ‘The Nature of Reality‘, brilhante composição de Andy Bell. Os outros que passaram pelo Oasis são tão shoegazers que sua qualidade musical poderia ser bem mais útil para piorar o que já soa ruim nos trabalhos do Blur. Depois de algum tempo se conhecendo, e mesmo participando de alguns dos outros álbuns, todos os membros da banda estão contribuindo plenamente para a criação deste álbum.

Dig Out Your Soul é um complexo de psicodelia e pauleira setentista. Soa forte, pesado e instigante como a banda nunca foi. Outras influências se fazem presentes nas composições.

Com o tempo, o Oasis conseguiu transformar o que era uma busca insana para se tornar os próximos Beatles, por um complexo de identidade musical que se caracteriza hoje mais como uma influência absorvida a seu favor, do que como um pastiche que chafurda na lama do plágio puro. Uma boa amostra é ‘To Be Where There’s Life‘, que por sinal é uma composição do guitarrista Gem Archer. E, embora o final de ‘The Turning‘ venha ao similar dedilhado de ‘Dear Prudence‘ (do famoso álbum branco, The Beatles, 1969), é uma boa inserção que não soou irritante como a introdução de piano de ‘Don’t Look Back In Anger‘. Quanto ao vocalista Liam, que ainda parece buscar o espírito de Lennon, ele consegue soa bem próximo às baladas de sua estrela-guia em ‘I’m Outta Time‘, é um pena que o slide na canção não soe tão suave como nas mãos de George Harrison, ao contribuir nos trabalhos do ex-parceiro de Beatles. Música que deveria vir a seguir de ‘The Turning‘, ouça e saberá o porquê. Já, ‘Falling Down‘ poderia dar lugar para ‘Lord Don’t Slow Me Down‘ que figura como bônus nas demais edições especiais do álbum.

Os trabalhos com violões por todo o álbum é belo destaque do álbum juntamente com a canção ‘(Get Off Your) High Horse Lady‘, uma das melhores composições que o Oasis já produziu. Enquanto ‘The Shock of the Lightning‘, que poderia figurar bem no álbum Be Here Now (1997) vai revitalizar as rádios que ainda tocam um bom rock de vez em quando entre os espasmos orgásticos eletrônicos produzidos para a garotada da geração MTV.

Dig Out Your Soul não é um álbum de grandeza para figurar como uma obra-prima, mas com certeza é grande o suficiente para abrir as portas da estrada que leva para o Olímpo do Rock, lugar onde a banda, ou pelo menos os Gallagher, consideram como seu lar.