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MPB

ESMALTE PARA MÃOS CALEJADAS E SABÃO EM PEDRA PARA AS SUAVES

MARISA MONTE
Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão
(1994)

Marisa Monte alçou sua carreira com passos extremamente calculados, embora depois do registro de 1994, Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão, a legitimação da nobreza artística da cantora tenha subido seu ego, transformando-a numa caricatura dúbia, a de ame ou deixe, tamanho é o culto dos fãs em cima da cantora, e a da ‘torcida de nariz’ por parte dos detratores de plantão para coisas como a canção Amor, I Love You ou o projeto Tribalistas, creditando a ela, um estigma de exploradora dos pobres sambistas que tem originalidade.

Mas discussões a parte, o fato é que o trabalho de ‘Verde, Anil…’ é um apanhado do que a cantora mais soube fazer: reunir em um trabalho todas as amizades e referências possíveis para um registro que marque carreira. Aliando-se a produção de Arto Lindsay, Marisa se especializou em agregar referências antagônicas, trazendo sonoridades modernas para velhos marcos do cancioneiro popular brasileiro, e imbuindo de originalidade brasileira a produção musical moderna, como no caso da versão de Pale Blue Eyes, do carrancudo Lou Reed. É como um esmalte para as mãos calejadas dos sambistas, e sabão em pedra para artistas da música moderna.

Seja nas composições com parceiros recorrentes – como Nando Reis, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes – ou através da reinterpretação de obras marcantes, ou as desconhecidas para o grande público – como Dança da Solidão (de Paulinho da Viola), A Menina Dança (de Jorge Ben), ou mesmo, Esta Melodia (de Jamelão e Bubu da Portela) – a concepção do álbum resultou em um marco para a carreira da cantora, tanto aqui, como no exterior. Mas, um dos melhores méritos que Marisa Monte poderia receber, está no fato que, a partir deste álbum, houve uma revitalização do interesse do público jovem pelas raízes da música brasileira. Afinal, diva mesmo, nós temos só duas: Elis Regina e Elza Soares.