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Folk

Manual de Influências, Vol. I

 

CHRIS ROBINSON – New Earth Mud (2002)

Guardadas as devidas proporções, o primeiro álbum solo do vocalista do Black Crowes, Chris Robinson, pode trazer a comparação ocorrida no lançamento do primeiro trabalho de sua banda, em 1990. Enquanto Shake Your Money Maker fazia a mídia especializada retirar a poeira dos discos do grupo Faces para se assegurar de suas suspeitas, o lançamento de New Earth Mud, em 2002, voltou-se os ouvidos para os primeiros álbuns solo do ex-vocalista do Faces, o hoje elegante-cafona Rod Stewart (sim, para os mais incrédulos e para os menos informados, Rod Stewart já fora um extravagante roqueiro nos anos 70). Enquanto no Black Crowes as guitarras puxavam as rédeas das músicas, como nos trabalhos do Faces, é no trabalho solo de Robinson que os violões e vocais ganham a frente das canções como nos álbuns de Stewart. Quer conferir a influência? Então assista os vídeos abaixo e veja Stewart no Faces, e Robinson no Black Crowes, para ver se o manual foi seguido à risca.

New Earth Mud traz as guitarras e teclados fazendo desenhos melódicos para iluminar violões que estão por todo o álbum. A voz de Robinson se apresenta menos rasgada, enquanto algumas letras carregam a paixão do vocalista pela atriz Kate Hudson, hoje sua ex-esposa, que ganha papel principal em ‘Katie Dear’, e recebe o Oscar de coadjuvante por ser inspiração em outras canções, como ‘Cold You Really Love Me’, ‘Safe In The Arms of Love’ e ‘She’s On Her Way’.

‘Untangle My Mind’ poderia passar por uma das faixas no segundo álbum de Lenny Kravitz, Mama Said (1991). Já, a funkeada ‘Ride’ traz o balanço de Sly and Family Stone para fazer a festa, enquanto Stevie Wonder de Superstition dança ao sol.

E esse Sol parece ser o outro inspirador do álbum. Desde as fotos da capa e encarte, até as músicas refletem o momento iluminado de Robinson. Enquanto canções como ‘Sunday Sound’, ‘Better Than The Sun’ e a já citada ‘She’s On Her Way’, servem de trilha sonora para manhãs iluminadas de verão. Outras como ‘Barefoot By The Cherry Tree’, ‘Fables’ e ‘Kids That Ain’t Got None’ ganham os raios de um pôr-do-sol vermelho, sereno e reflexivo.

A influência de um artista sobre outro é inevitável e benéfica para se ter um parâmetro para desenvolver um estilo próprio. Rod Stewart tem como sua maior influência Sam Cooke, mas sempre ficou apenas com o trabalho de vocalista, raramente tocando uma base de violão ou algum dedilhado no banjo. Robinson não deixou por menos, e vai um pouco mais além de sua maior influência. Pois se encarregou da percussão, de violões e guitarra base, além da direção artística. Não se rendendo ao caminho fácil dos últimos lançamentos de Stewart. Robinson percorre toda a cartilha do rock and roll, sabendo agregar as melhores qualidades de outros músicos.

Nos trabalhos solos de Stewart, o hoje Stone, Ronnie Wood era o responsável pelos arranjos e violões inspiradíssimos nas músicas que o vocalista beberrão explorava seus mais variados dotes vocais. No caso de Robinson, a parceria é com o músico-amigo Paul Stacey, que atualmente empunha a segunda guitarra no Black Crowes e, foi responsável por grande parte dos instrumentos deste álbum.

Para um primeiro disco solo de vendagem moderada, New Earth Mud ganhou bonificações em alguns países. A versão francesa recebeu três faixas ao vivo em formato acústico, enquanto a americana está acompanhada de um DVD com uma das apresentações do cantor e de Stacey nos violões. Por aqui, o disco só chegou via internet mesmo.

Rod Stewart no Faces

 

Chris Robinson no Black Crowes

 

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Os “Ex” no My Space: Eddie Harsch

Quem se lembra da questão-clichê ‘Que fim levou …?’ e tem algum artista que se encaixaria no lugar das reticências?. A experiência investigativa pode ser reativada agora  com apenas alguns cliques através do MySpace, pois aquele músico que tocou em alguma banda de sucesso e que, após sua saída, não engatou uma carreira não divulgada pela grande mídia, pode ser encontrado fazendo algum trabalho interessante. É o caso de Eddie Harsch, ex-tecladista do Black Crowes, atualmente disponibilizando suas teclas, e seu fraseado bluesy, para a banda Bulldog, de Detroit.

A Bulldog lançou um álbum homônimo, disponível pelo site de música independente CD Baby, em que o folk-rock produzido é fortemente influênciado por pilares do  gênero como Gram Parsons, Bob Dylan e Neil Young, mas que remete bem mais para Ryan Adams, muito devido ao vocal de Kenny Tudrick, principal compositor da banda, guitarrista, que também atende pela egotrip de Bulldog.  Mas, a grande elegância nas composições se deve muito aos fraseados de Harsch – singelos e arrepiantes nos momentos precisos, e contemplativos em meios aos vocais, vide ‘South Dakota Sad Eye‘ – enquanto o pedal-steel de Pete Ballard cria o clima de filme western, como em ‘Shelter‘, bem como a melancolia bucólica, típica do instrumento,  em canções como ‘Badlands’ e ‘Just a Knife in the Back’. A abertura é bem Bod Dylan, com direito a gaita, em ‘Crash and Burn‘, e o álbum vai bem até o fim, com a obscura ‘Blinded‘, um elemento tipicamente inglês, um Beatles da fase Abbey Road. O álbum também reserva uma curiosa surpresa na penúltima faixa, ‘Ain’t Right’, que lembra, justamente, o repertório do primeiro álbum da ex-banda de Harsch, cujo qual ele não participou das gravações, pois entrou para a banda em 1991, em meio a turnê de divulgação do mesmo – o álbum Shake Your Money Maker (1990) teve suas a cargo de Chuck Leavell, tecladista dos Rolling Stones, mas que já  tocou com Allman Brothers, Eric Clapton e outros, mas isso já é outra história.

HISTÓRICO

eddie harsch

Harsch, que já havia tocado com os blueseiros Muddy Waters e Albert Collins, entrou para os Black Crowes em 1991, permanecendo com a banda  até 2006. O tecladista deixou seu posto  com alguns dias de diferença da saída  do  guitarrista Marc Ford, que partiu para carreira solo. A alegação oficial foi por problemas de saúde.

Seus trabalhos com o Black Crowes são: The Southern Harmony and the Musical Companion (1992), Amorica (1994), Three Snakes and One Charm (1996), By Your Side (1999), e Lions (2001), todos de estúdio. Ao vivo, com a banda sairam Live at the Greek (revisitando juntamente com Jimmy Page, clássicos do Led Zeppelin e covers de Blues, 2000), Live (2002), e Freak ‘N’ Roll…Into the Fog (2006), que saiu tanto em vídeo como em aúdio.