Um blog para loucos e para raros.

O Choque da Maturidade

Oasis deixa a obsessão Beatle de lado e, com diversas influências, consegue capturar sua própria alma em seu álbum mais pesado e psicodélico

Até hoje não encontrei nenhum sinal de grandeza nos álbuns do Oasis. Por mais que se tente, ouvir um álbum completo deles sempre empipocava no meio de campo. E boas idéias sempre se perdiam em meio ao caos da seleção musical, ou de insuficiência regularidade qualitativa das composições, e o que me parece mais certeiro: falta de maturidade. A pretensão da banda realmente soa bem maior do que sua qualidade sonora e o álbum Dig Out Your Soul, não escapa a risca, embora traga muitos pontos a favor da banda, indicando que se houver um esforço para que ela soe como é o intento, isso se realizará ao longo dos demais trabalhos. Talvez isso soe como um sinal do amadurecimento, fato que os irmãos Gallagher e sua trupe careciam totalmente, e agora, talvez só em parte, e por mais fãs, críticos e até mesmo alguns entes da banda que reclamem do declive de qualidade dos álbuns que se seguiram desde os dois primeiros álbuns – Definitely Maybe e (What’s the Story) Morning Glory, lançados em 1994 e 1995, respectivamente – vejo uma busca interessante para que o Oasis ache seu caminho na história do rock, invés de tentar ser os Beatles, e acabar saindo como o R.E.M.

Algo que predominava nos álbuns da banda que se diferencia em Dig Out Your Soul é a bateria. Aqui ela realmente parece ser tocada por um músico eficiente, no caso Zak Starkey, filho do básico Ringo Starr que teve a inteligência de mandar seu filho ter aulas de bateria com ninguém menos que Keith Moon, o octópode alucinado que comandava a cozinha do The Who. Não que Starkey levou sua quase clonagem do estilo Moon de tocar para o Oasis, isso seria um equivoco, e como o rapaz parece ter os parafusos funcionando, fez um trabalho que deixou as composições com uma vitalidade incrível. Starkey conseguiu que a bateria não soasse como uma criança tímida e descoordenada tentando aprender seu instrumento durante as gravações, e não demonstrando nenhum tipo de habilidade ou energia para enriquecer as composições, como foi o caso das demais baterias dos álbuns anteriores do Oasis.

Outro fato que também faz diferença em Dig Out Your Soul é a presença marcante dos demais membros fazendo o papel de banda. O guitarrista Gem Archer e o baixista Andy Bell são músicos no calibre necessário para uma boa empreitada rock ‘n’ roll como pretende os irmãos Gallagher. Para comprovar tanto a contribuição de Starkey, quanto dos demais, é só prestar atenção nos timbres das guitarras e na bateria épica de ‘The Nature of Reality‘, brilhante composição de Andy Bell. Os outros que passaram pelo Oasis são tão shoegazers que sua qualidade musical poderia ser bem mais útil para piorar o que já soa ruim nos trabalhos do Blur. Depois de algum tempo se conhecendo, e mesmo participando de alguns dos outros álbuns, todos os membros da banda estão contribuindo plenamente para a criação deste álbum.

Dig Out Your Soul é um complexo de psicodelia e pauleira setentista. Soa forte, pesado e instigante como a banda nunca foi. Outras influências se fazem presentes nas composições.

Com o tempo, o Oasis conseguiu transformar o que era uma busca insana para se tornar os próximos Beatles, por um complexo de identidade musical que se caracteriza hoje mais como uma influência absorvida a seu favor, do que como um pastiche que chafurda na lama do plágio puro. Uma boa amostra é ‘To Be Where There’s Life‘, que por sinal é uma composição do guitarrista Gem Archer. E, embora o final de ‘The Turning‘ venha ao similar dedilhado de ‘Dear Prudence‘ (do famoso álbum branco, The Beatles, 1969), é uma boa inserção que não soou irritante como a introdução de piano de ‘Don’t Look Back In Anger‘. Quanto ao vocalista Liam, que ainda parece buscar o espírito de Lennon, ele consegue soa bem próximo às baladas de sua estrela-guia em ‘I’m Outta Time‘, é um pena que o slide na canção não soe tão suave como nas mãos de George Harrison, ao contribuir nos trabalhos do ex-parceiro de Beatles. Música que deveria vir a seguir de ‘The Turning‘, ouça e saberá o porquê. Já, ‘Falling Down‘ poderia dar lugar para ‘Lord Don’t Slow Me Down‘ que figura como bônus nas demais edições especiais do álbum.

Os trabalhos com violões por todo o álbum é belo destaque do álbum juntamente com a canção ‘(Get Off Your) High Horse Lady‘, uma das melhores composições que o Oasis já produziu. Enquanto ‘The Shock of the Lightning‘, que poderia figurar bem no álbum Be Here Now (1997) vai revitalizar as rádios que ainda tocam um bom rock de vez em quando entre os espasmos orgásticos eletrônicos produzidos para a garotada da geração MTV.

Dig Out Your Soul não é um álbum de grandeza para figurar como uma obra-prima, mas com certeza é grande o suficiente para abrir as portas da estrada que leva para o Olímpo do Rock, lugar onde a banda, ou pelo menos os Gallagher, consideram como seu lar.

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8 Respostas

  1. Desnecessário acrescentar qualquer comentário a essa matéria, mas diria que você foi até muito bondoso com os irmãos Gallagher. Acho que esse álbum só é melhor do que os outros porque o Oasis já tinha atingido o fundo do poço. Melhorar, nessas condições, é relativamente fácil.

    Ótima matéria, cara.

    Um abraço!

    27 novembro 2008 às 15:39

  2. Fabrício

    Eu que sou admirador da banda a muito tempo também achei que você foi generoso demais rs…Mas como é belo post que me pegou de surpresa agora, vou tecer melhor comentário sobre o post e o album quando eu estiver em minha casa.

    28 novembro 2008 às 11:13

  3. Não penso que fui generoso, mas correto. Agradeço pelos elogios pela análise do álbum.

    28 novembro 2008 às 16:53

  4. Fabrício Silva

    O fanatismo cego já não existe mais no meu caso. Como grande admirador da banda, meus comentários não podem faltar.

    O fã que reclamar desta banda por ela soar como os Beatles, pode se matar. E vejo muitos reclamarem, acho ridículo.

    De todas as matérias que li sobre o trabalho novo dos caras, esta é a melhor. Mesmo porquê ao que me parece, os jornalistas hoje escrevem matérias na base do ctrl+c ctrl+v recorrendo a tudo o que já foi dito sobre a banda. Como são preguiçosos meu Deus!
    Mas este não é o caso aqui.

    Tudo o que foi dito eu assino em baixo, exceto…
    Lord Don’t Slow Me Down na minha opinião deveria ter entrado no lugar de Soldier On. A ultima música do disco é um tanto brochante.

    As melhores canções desta vez são dos integrantes que sempre ficam meio fora de foco no Oasis, mesmo quando estes são Gem Archer e Andy Bell.

    Bom relatar que nos trabalhos anteriores onde eles já conseguiram colocar uma música de própria autoria cada um, as mesmas eram ruins.
    Agora estão perdoados.

    To Be Where There’s Life a música sem guitarra do disco, é ironicamente ou não, a melhor, em minha opinião.

    O que não gosto hoje no Oasis é um Liam ainda muito fanático por Lennon, isto também passa a ser ridículo. Mas a canção dele é boa mesmo, e parece que pode progredir como compositor.

    Os shows, ou eu estou ficando ranzinza, ou a apatia no palco tem me encomodado. Em todo caso posso estar enganado.

    É sem dúvida o melhor trabalho desde a primeira fase da banda. E é o primeiro trabalho de uma terceira fase. Ele peca por, uma semana depois, você preferir ouvir algum dos Stones ou do Led Zeppelin, ao invés de Dig Out Your Soul.

    Mas o fã pode ficar feliz, ao que tudo indica eles estão mesmo amadurecendo.
    Abraço.

    28 novembro 2008 às 17:27

  5. george o meu beatle preferido também. my sweet lord. tudo q vc disse eu digo igual … adoro suas visitas. vou vir mais aqui. ótima a sua frase sobre a desbeatlebilização do oasis … bj.

    2 dezembro 2008 às 17:40

  6. to orgulhosa de tudo, e um dos meus maiores orgulhos é ter conhecido vc.
    nesse momento, lendo seu coment to escutando d’us … fred mercury.

    tenho instalada uma barra do freecorder, que tem um tocador de rádios dos usa e que fica constantemente em classic rock.
    um barato. beijo.
    os dois discoteclando estão no wordpress????
    come on baby do the locomotion …. bj.

    6 dezembro 2008 às 17:48

  7. gostei do disco porque sou fã, mas sei bem que o Oasis está em declínio.

    ainda assim, defendo que os caras já fizeram coisas de qualidade, mas aí é o lado fã falando mais alto mesmo.

    é sempre ótimo ler seus comentários lá no Calo. Apareça sempre!

    abraços!

    11 dezembro 2008 às 14:51

  8. Finalmente li sua resenha e vou comentá-la, Giul.
    Concordo que a maturidade esteja batendo às portas do Oasis, afinal, eles devem estar cansados de apenas fazerem músicas para serem as mais tocadas das paradas britânicas. O experimentalismo (mesmo que pequeno) tem tido presença, principalmente em Dig Out Your Soul.

    Com relação ao instrumento bateria, uma observação: o Zack já toca com o Oasis desde o penúltimo CD (Don’t Believe the Truth). Não acho que ele tenha influenciado tanto o disco, pois Noel Gallagher tocou bateria em três faixas do álbum: Bag It Up, Waiting for the Rapture e Soldier On. Ou seja, teve o dedo do irmãozão na batera do disco. Sobre os outros bateras do Oasis, o primeiro foi muito medíocre, mas o segundo, Alan White, foi um grande baterista – não sei o motivo de sua saída da banda.

    Sobre os outros dois membros do grupo, acho que a participação deles se manteve igual. Eles já participam dos discos do Oasis desde 2000 (Standing on the Shoulders of Giants) e sempre compuseram uma ou outra música. Concordo que estejam mais entrosados, mas a psicodelia e estilo mais pesado parecem-me ser influência de Noel.

    Sobre a comparação com Beatles, nunca achei que Oasis tentasse copiar. Os irmãos Gallagher fazem um ritmo muito mais cadenciado do que os Beatles. Para mim, o Oasis captura algumas influências, mas a música em si não é parecida, por isso, não é possível soar como plágio.

    Concordo com você quando diz que o Oasis não está decaindo. Acho que estava quando lançou Heathen Chemistry, um álbum que não acrescentava nada à carreira da banda. Este disco (Dig Out Your Soul) é mais pesado e tem melodias vocais mais abrangentes (que exploram mais as notas, não sei explicar). É um disco diferente que fez a banda subir no meu conceito.

    É isso, Giul, abraço!

    28 dezembro 2008 às 15:06

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