O nascimento de uma diva
Parceria entre Aretha Franklin e Atlantic Records deu ao mundo a Rainha do Soul
Vivemos em uma época que gravadoras não são consideradas relevantes para a maioria dos artistas. Basta que o músico componha e grave de qualquer forma sua arte que, milagrosamente, ao disponibilizá-la pela web, a multiplicação dos pães se faz presente. Mas, há muito tempo atrás, em um país ou galáxia distante, existiram gravadoras que se preocupavam com artistas, e com o que era produzido. Aretha Franklin é um dos exemplos mais plenos de visualizar tal influência, que pode gerar frutos ou apodrecer um pomar inteiro.
Quando a cantora botou os pés na Atlantic Records, ela já havia labutado por 10 anos através da Columbia, que insistia num repertório de standards de jazz e levadas pop que limitavam a essência e potência messiânica da jovem estrela. A gravadora não sabia o que queria da cantora. Com isso, Aretha foi gravando álbuns que não eram ruins, mas não tinham uma direção, sem representar todo o potencial da força que ela poderia render. Foi a partir das gravações feitas para a Atlantic Records, em 1967, que Aretha passou a ser conhecida como a Lady Soul. À vontade para explorar seus dotes vocais, de pianista e compositora, Franklin pode soltar diva que habitava em seu ventre, e explorar todo o DNA gospel que carregava. O produtor Jerry Wexler teve foi hábil artesão ao lapidar o que Aretha tinha de melhor a oferecer para a música. Desta “parceria” saíram álbuns essências para compreender a música soul de vocais femininos, além de aproximar vertentes que estavam despontando na segunda metade dos sixties: folk e rock. Suas versões para Beatles, Rolling Stones, Simon and Garfunkel, além dos clássicos soul, estão concentrados nesta fase.
I Never Loved A Man The Way I Love You, estreia da cantora na gravadora de Ahmet Ertegun, em 1967, não só é um grande álbum. Extremamente bem trabalhado quanto a composições – ora próprias, ora releituras definitivas para canções de Ray Charles, Otis Redding e Sam Cooke – com execução primorosa e produção catalisadora, contém seu maior sucesso popular, a releitura de Redding se tornou um grito feminino, e não feminista, titulado apenas ‘Respect’. Dividido entre gravações com experientes músicos sulistas em estúdios no Alabama e Nova York, o registro é um marco na carreira da cantora, que soube tramitar entre o soul e o r&b com elegância e destreza, como se fosse uma cortesã reinando sobre uma cama bem feita em lençóis de seda.
Em 1968, ao registrar Lady Soul, ela se tornou popular sem precisar soar artificial, ou bajuladora de outras vozes. Em plena luta pelos direitos civis, a cantora foi suavemente impactante, como um sit-in, na leitura de People Get Ready, hino de Curtis Mayfield, provando que sua qualidade profissional ultrapassava as barreiras da segregação, e passando a ser cultuada, como uma das grandes representantes da música americana. Aretha registrou o álbum apoiada por um exército: o capitão Wexler seguido do engenheiro de som Tom Dowd, músicos como Bobby Womack, King Curtis, Spooner Oldham e Eric Clapton, além de arranjadores, grupos de backing vocals e sopros metalizados como as trombetas do paraíso fizeram da experiência um deleite para a posteridade. A garota de Memphis, que começou a cantar gospel em Detroit e que se tornou uma rainha do preciso estilo do Harlem, registrou em Lady Soul sua obra definitiva.
Mas, como todas as coisas tendem a passar, o toque de Midas de Aretha Franklin & Atlantic Records durou até um pouco mais da primeira metade dos anos 70, quando o vento da mudança bateu sobre as paredes do estúdio e toda a beleza cintilante de seu canto foi abafada por canções pop pobres em originalidade e timbragem. Ironicamente, essa fase ingrata coincide com Aretha pipocando por outros selos. Não havia mais o mesmo brilho captado em sua ‘Era Atlantic’. Com o advento da disco music e o punk pichando as colunas sagradas do rock, todo o soul e gospel da cantora foram relegados ao segundo e terceiro planos das gravadoras. Mas ela deixou o seu legado e muitos artistas souberam sorver deste banquete.
Uma entrega total
Consolidada como ‘A Nova Voz’ da Soul Music através do seu primeiro álbum The Soul Sessions (2003), a cantora Joss Stone aprontou uma ótima seqüência para garantir, intencionalmente ou não, o título citado, e que foi antecipadamente lhe outorgado. Apoiada mais uma vez por grandes músicos que participaram de seu primeiro álbum, Joss retira um dos pés do Soul, imprimindo uma sonoridade com muito mais swing e mostrando em Mind, Body & Soul, algo mais contemporâneo. Se compararmos estilos, The Soul Sessions mostra uma voz jovem em um conceito mais tradicional, enquanto no a segunda empreitada, apesar de conter mais da metade das canções bem ao estilo que a consagrou, elas abrangem outros aspectos da Black Music, formas e fórmulas que foram menos exploradas em seu antecessor.
A pressão do segundo disco, após um primeiro aclamado, pode gerar insegurança para alguns artistas, mas no caso de Stone foi apenas o de manter a qualidade do anterior.
O desafio aqui foi se colocar como compositora. Munida de parceiros, ela assina quase que a totalidade das grandes composições, que não falham para fortalecer o possível conceito do álbum. A abertura é garantida pela forte Right To Be Wrong. Já, Jet Lag é sensual, mas não apelativa. Enquanto, Don’t Cha Wanna Ride, que é cheia de balanço, e o reggae em Less Is More são provas de que o disco consegue agradar não só os puristas, mas também a ouvidos menos criteriosos. A interpretação de Stone sugere muitas características do estilo da grande diva do Soul: Aretha Franklin. Spoiled é como um sermão amoroso tão similar às obras de Franklin, enquanto You Had Me pode ser a Respect da jovem cantora inglesa. Mas, a melhor interpretação da cantora aparece após as 14 faixas nomeadas de Mind, Body & Soul.
Outro ponto positivo neste álbum é o fato de os vocais de apoio fazerem uma bela estrada para a voz de Joss percorrer todos os caminhos que seu poder vocal pode alçar. Levadas bem Black, apimentadas em alguns momentos, viajantes e suaves em outros, temperam as canções. Pequenos detalhes em arranjos de instrumentos e timbragens aparecem para deixar as composições mais envolventes. A cantora parece ter se entregado totalmente em suas interpretações, fazendo jus ao título do álbum, que mexe com o ouvinte também da mesma forma: pela Mente, Corpo e Alma.
Pena a cantora ter se perdido num esquema bem comercial em seu terceiro trabalho.
UMA IDÉIA SINGELA SE PERPETUA NO FUTURO
Delaney & Bonnie and Friends – Motel Shot – 1971
Delaney e Bonnie Bramlett formavam um casal que produzia um rock cheio de soul. Depois de alguns discos que não tiveram reconhecimento mundial, mas que são compostos de uma qualidade musical peculiar e criativa, além de serem artistas com grande influência entre os músicos. Depois de alguns álbuns, e várias turnês sold out – incluindo uma com Eric Clapton na guitarra – resolveram convidar alguns amigos para participar de uma gravação em que os instrumentos acústicos seriam predominantes nas músicas. Escolhendo algumas canções tradicionais e outras tantas inéditas, eles fizeram uma pequena festa com esse círculo de amizades misturando gospel, country, blues, folk, and o antigo R&B e lançaram isso em 1971. Alguma lembrança aos acústicos que apareceram no início dos anos 90 e viraram marca e febre comercial na indústria fonográfica?
Muito antes da explosão dos acústicos, via MTV ou outras, o álbum Motel Shot de Delaney & Bonnie and Friends, é um marco para a criação de acústicos, onde a experimentação musical ganha novas cores, gente famosa comparece, não para ser mais um atrativo de vendagem, mas para contribuir com amizade verdadeira e se divertir fazendo música, garantindo entusiasmadas jam’s em que o sentimento metafísico se faz presente.
Os amigos em Motel Shot são figuras clássicas do rock sixties, e colocaram suas especialidades em favor da música produzida neste álbum. Leon Russel trouxe sua infame personalidade musical na guitarra e piano, mas também trouxe a força e a rouquidão da voz de Joe Cocker, que se destaca em Talkin’ About Jesus. Enquanto Gram Parsons e Clarence White contribuíram com a energia country dos Flying Burrito Brothers e Byrds. O saxofone de Bob Keys que é marca de sopros nos Stones, já fazia a festa pelas turnês dos Bramletts. Jim Keltner é responsável pelas batidas orgânicas e detalhistas, enquanto Dave Manson explorou os arranjos de Delaney junto do slide sulista de Duane Allman. O piano de Bobby Whitlock, e o baixo pulsante de Carl Radle sempre foram créditos desde o primeiro álbum do casal Delaney & Bonnie.
O clima de festa e louvação musical é do início ao fim. Lonesome And A Long Way From Home fecha esse ‘acústico’ numa versão mais intimista que a executada pela banda de Bramlett, além de ser arranjada e produzida pelo próprio, para o primeiro solo do amigo Clapton. Will The Circle Be Unbroken celebra a amizade musical desta reunião, com uma excelente interpretação vocal de Bonnie. A versão de Come On In My Kitchen, do lendário bluseiro Robert Johnson, ganha o piano e percussão como condutores, enquanto na seqüência, Don’t Deceive Me trabalha a vocalização da canção como uma reverência as raízes do blues.
Motel Shot é uma amostra de que singelas idéias, mas originais, podem ser mais significantes do que se esperaria. Pois, quem diria que, este mesmo esquema de gravação ganharia as paradas de sucesso, mais de vinte anos depois?!?!
TOP OF THE ROCK’S 2007
Robert Plant & Alisson Krauss – Raising Sand (Outubro)
Alisson Krauss é a expressão do bluesgrass que Robert Plant, ex-vocalista do Led Zeppelin, sempre desejou ser. As versões de canções tradicionais e outras de qualidade ímpar apresentam uma energia sobrenatural, rústica – mas com tratamento sonoro moderno – para duas vozes que mereciam se encontrar. O estado de pureza deste álbum é apresentado através de um ritmo originalmente americano, muito mais próximo do som que Plant protagonizou com sua antiga banda, do que com as viagens orientais em seus últimos álbuns solo.
Iron and Wine – The Shepherd’s Dog (Setembro)
A voz quase sussurrada da banda de um homem só, Samuel Beam, teve sua produção low-profile transmutada para um álbum de qualidade peculiar, para que as nuances musicais casassem de maneira vital. Do folk tipicamente americano de voz e violão, emergiu uma forma em que os ritmos e percussões climatizam a mente para uma viagem musical por outras terras. Instrumentos e ritmos não convencionais ao estilo anglo-saxônico – oriundos da América Latina, ou percussões orientais – aparecessem nas composições deste álbum, criando um minimalismo musical extraordinário e extremamente saudável de audição.
Patti Smith – Twelve (Abril)
A poeta do rock sempre protagonizou covers com excelência, originalidade e muitas intervenções nas letras. Neste álbum ela simplesmente escolheu canções que tivessem força em sua mente, que lhe agradassem, e mostrou como elas podem em muitos momentos serem melhores do que são nas suas versões originais. Do mais inusitado, como Everybody Wants to Rule The World, do Tears for Fears – que aparece aqui com muito mais impacto do que na original – a esperada Gimme Shelter, dos Stones – trazendo o clima pesado da gravação original, esquecida um pouco das versões apresentadas ao vivo pelos autores – há também a versão campestre para Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, ou com desfecho onírico de Pastime Paradise, Patti prova que, tratados com respeito e seriedade, essas canções podem parir novos sentimentos, reacender outros já esquecidos, e dar a verdadeira paisagem para algo que não era tão comovente.
Wilco – Sky Blue Sky (Maio)
A banda de Jeff Tweedy protagonizou um álbum em que os delírios guitarrísticos de Neil Young se unem a melodia pop de Paul McCartney, quando este estava na fase mais introspectiva dos Beatles. A banda gravava enquanto compunha o álbum, isso fez com que a sensibilidade da criação fosse sentida através das caixas de som. Este é provavelmente o melhor álbum que o Wilco produziu até o momento. Já foi resenhado aqui anteriormente.
Amy Winehouse – Back To Black (Dec-2006/2007)
Como o álbum mais desbocado e comentado de 2007 teve sua primeira versão lançada em 19 de Dezembro de 2006, e as outras seis versões em 2007, não podemos dar de ombros, e dar as boas vindas para a black music da senhora da taberna, Amy Winehouse. As canções são cheias de desespero e bebida.
Amy apresenta a doçura da dor de seu amor em letras pesadas, enquanto o soul que se espalha pelo álbum é moderno e, ao mesmo tempo, caracteristicamente focado na geração Motown. Se tivesse lançado pela gravadora em sua fase áurea, ninguém perceberia a diferença.
SEGUINDO O INSTINTO
Ben Harper and the Innocent Criminals – Lifeline – 2007A oitava produção de Ben Harper, Lifeline, contém o ‘amálgama de banda’ que não foi explorado em seu disco anterior, duplo e, até um tanto conceitual, Both Sides of the Gun, de 2006.
Extremamente trabalhado nas passagens de som durante a turnê de Both Sides’, as canções foram bem estruturadas para, em apenas uma semana de novembro de 2006, serem gravadas todas em processo analógico, em um estúdio em Paris, algo que Harper almejava há tempos.
As canções de Lifeline não trazem as viagens de Weissenborn características de Harper, a não ser pela penúltima, a instrumental e acústica “Paris Sunrise #7″, feita inteiramente no instrumento. Lifeline agrega as letras do músico californiano com o trabalho instrumental de todos os integrantes da Innocent Criminals – atualmente formada por Juan Nelson (baixo), Oliver Charles (bateria), Leon Mobiley (percussão), Jason Yates (teclados) e o novo integrante, Michael Ward, ex-Wallflowers.
Compare as capas de Both Sides of the Gun e Lifeline. No trabalho anterior, Harper aparece sozinho de braços cruzados na capa, enquanto em Lifeline, o músico está na mesma posição, mas rodeado de seus escudeiros, demonstrando que é um trabalho de banda.
Há muito soul em todas suas vertentes pelas faixas de Lifeline. Mas, há também um pouco de black tipicamente Motown, country e até o Ben Harper do início de carreira. “Fool for a Lonesome Train” lembra os Stones country do início da década de 70, quando Gram Parsons era uma grande influência para Keith Richards. “Heart of Matters” e “Say Will You” estão bem próximas do trabalho realizado em There Will Be A Light (2004 – e resenhado aqui anteriormente), parceria com os músicos do Blind Boys of Alabama. Inclusive, se colocarmos de lado o trabalho anterior de Harper, Lifeline parece uma seqüência lógica para o som desenvolvido em There Will Be A Light.
PARA TRAZER PAZ DE ESPÍRITO
Ben Harper & Blind Boys of Alabama
There Will Be A Light
2004
Unir tradição e revolução musical não é trabalho para qualquer artista. Mas, se tratando de Ben Harper, o assunto pode gerar essa improvável reunião. Para findar isso, ele se aliaou ao grupo de cantores Blind Boys of Alabama, e lançou no mercado em 2004, o premiado álbum There Will Be A Light. Nele, o músico californiano demonstra toda a sua bagagem religiosa e musical – rock, blues, jazz, reggae e principalmente gospel – temperado com o estilo refinado do afinadíssimo grupo vocal.
As gravações foram retiradas de duas sessões de estúdio, mostrando composições que trazem spirituals, cantos dos escravos negros do Mississipi, juntamente com o distinto e passional canto gospel. Ben Harper deixou de lado as distorções e produziu um álbum delicado, mas cheio de vida e swing. O timbre de seu Weissenborn – espécie de violão tocado sentado com um slide e corpo e braço ocos, feitos de uma peça só de madeira – rege as cores em ‘11th Commandment‘, um belo instrumental solo, em que o músico californiano deixa aflorar todo o seu sentimento. Além dos Blind Boys, que trazem um brilho forte para canções como ‘Take My Hand’, ‘Satisfied Mind‘, e a faixa título, Harper continua muito bem escudado pelos companheiros da Innocent Criminals. Marc Ford, ex-Black Crowes, é o guitarrista nessas sessões, e Jason Yates, além de contribuir com os teclados na banda, desenhou a arte gráfica do álbum. Com dez canções inéditas, e quase quinze pessoas nas sessões, apenas ‘Picture of Jesus‘, do álbum anterior, Diamonds on the Inside (2003), ganha uma nova leitura, mais gospel.
There Will Be A Light é um trabalho que carrega toda a emoção – cultural, musical e histórica – do povo negro americano. Suas raízes africanas, sua fé, seus sonhos e redenções estão expostos num álbum com um efeito pacificador na alma. Realmente trazendo um pouco de luz, para a escuridão que é o cenário musical no novo século.
Mais Ben Harper? Leia a resenha do álbum Lifeline clicando aqui!




