Um blog para loucos e para raros.

rock

Pimentas Recheadas

O Red Hot é uma das poucas bandas que conseguem lançar um trabalho que traga mais de dois sucessos. Preferem abusar da criatividade, antes de se esgotar na exploração de um único single

O que dizer de um álbum que foi produzido por Rick Rubin? O produtor de maior impacto dos anos 90. O que dizer de um álbum que teve como engenheiro de som Brendan O’Brian? O responsável pelos principais álbuns de rock da mesma década – vide ficha técnica de vários álbuns do Pearl Jam. O que dizer de um álbum que foi dedicado para Mike Watt? O baixista mais descerebrado do grunge e que nesta década se reuniu aos veteranos Stooges, banda que cutucou o útero de gestação do punk.

Há algo mais a dizer quando se trata de um disco dos Red Hot Chili Peppers? Que tal que este disco levou a banda para o topo das paradas. Blood Sugar Sex Magic elevou a enésima potência a química iniciada em Mother’s Milk, disco de 1989, com a entrada de Chad Smith na bateria e John Frusciante na guitarra – este último um dos melhores de seu instrumento que apareceram nos anos 90. Neste álbum os músicos exploram toda sua técnica como instrumentistas sem perder o feeling, enquanto mostram o Phd retirado anos antes com o pai do funk-rock George Clinton. Que Blood Sugar Sex Magic contém uma cover do mítico bluesman Robert Johnson, mas que o resto das canções foram criadas quando a banda se trancou em uma mansão, só saindo de lá quando tinha em mãos faixas estupidamente cheias de sangue, ‘açúcar’ (para os desavisados leia-se drogas), sexo e magia.

O Red Hot é uma das poucas bandas que conseguem lançar um trabalho que traga mais de dois sucessos. Eles Preferem abusar da criatividade, antes de se esgotar na exploração de um único single. Para provar isso, o set-hit-list do álbum é grande, e muitas destas canções são parte do inconsciente coletivo pós-MTV: Suck My Kiss, Give It Away, Under the Bridge, Power of Equality, Breaking the Girl e BloodSugarSexMagic, faixa que dá título ao apimentado trabalho, lançado em 1991. Some a isso mais dez canções que esquentam o molho sonoro de qualquer aparelho, sem deixar nada aos ingredientes já mencionados.

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PS.: o álbum ainda contém, em sua versão norte-americana, o típico adesivo de advertência de conteúdo explícito, muito comum nos anos 90, que acabou tendo sua função reutilizada, tornando uma marca de provocação para a juventude que consumia qualquer material que tivesse o selo estampado bem na capa, resultando em vendas astronômicas para a indústria fonográfica, cuja qual utilizou o signo em lugares que nem necessitava de aviso de conteúdo – mas que careciam de um aviso sobre má qualidade musical – e que no final, chafurdou  na lama, desgastado pelo excesso, ironia? Não, consumismo exacerbado.


O Choque da Maturidade

Oasis deixa a obsessão Beatle de lado e, com diversas influências, consegue capturar sua própria alma em seu álbum mais pesado e psicodélico

Até hoje não encontrei nenhum sinal de grandeza nos álbuns do Oasis. Por mais que se tente, ouvir um álbum completo deles sempre empipocava no meio de campo. E boas idéias sempre se perdiam em meio ao caos da seleção musical, ou de insuficiência regularidade qualitativa das composições, e o que me parece mais certeiro: falta de maturidade. A pretensão da banda realmente soa bem maior do que sua qualidade sonora e o álbum Dig Out Your Soul, não escapa a risca, embora traga muitos pontos a favor da banda, indicando que se houver um esforço para que ela soe como é o intento, isso se realizará ao longo dos demais trabalhos. Talvez isso soe como um sinal do amadurecimento, fato que os irmãos Gallagher e sua trupe careciam totalmente, e agora, talvez só em parte, e por mais fãs, críticos e até mesmo alguns entes da banda que reclamem do declive de qualidade dos álbuns que se seguiram desde os dois primeiros álbuns – Definitely Maybe e (What’s the Story) Morning Glory, lançados em 1994 e 1995, respectivamente – vejo uma busca interessante para que o Oasis ache seu caminho na história do rock, invés de tentar ser os Beatles, e acabar saindo como o R.E.M.

Algo que predominava nos álbuns da banda que se diferencia em Dig Out Your Soul é a bateria. Aqui ela realmente parece ser tocada por um músico eficiente, no caso Zak Starkey, filho do básico Ringo Starr que teve a inteligência de mandar seu filho ter aulas de bateria com ninguém menos que Keith Moon, o octópode alucinado que comandava a cozinha do The Who. Não que Starkey levou sua quase clonagem do estilo Moon de tocar para o Oasis, isso seria um equivoco, e como o rapaz parece ter os parafusos funcionando, fez um trabalho que deixou as composições com uma vitalidade incrível. Starkey conseguiu que a bateria não soasse como uma criança tímida e descoordenada tentando aprender seu instrumento durante as gravações, e não demonstrando nenhum tipo de habilidade ou energia para enriquecer as composições, como foi o caso das demais baterias dos álbuns anteriores do Oasis.

Outro fato que também faz diferença em Dig Out Your Soul é a presença marcante dos demais membros fazendo o papel de banda. O guitarrista Gem Archer e o baixista Andy Bell são músicos no calibre necessário para uma boa empreitada rock ‘n’ roll como pretende os irmãos Gallagher. Para comprovar tanto a contribuição de Starkey, quanto dos demais, é só prestar atenção nos timbres das guitarras e na bateria épica de ‘The Nature of Reality‘, brilhante composição de Andy Bell. Os outros que passaram pelo Oasis são tão shoegazers que sua qualidade musical poderia ser bem mais útil para piorar o que já soa ruim nos trabalhos do Blur. Depois de algum tempo se conhecendo, e mesmo participando de alguns dos outros álbuns, todos os membros da banda estão contribuindo plenamente para a criação deste álbum.

Dig Out Your Soul é um complexo de psicodelia e pauleira setentista. Soa forte, pesado e instigante como a banda nunca foi. Outras influências se fazem presentes nas composições.

Com o tempo, o Oasis conseguiu transformar o que era uma busca insana para se tornar os próximos Beatles, por um complexo de identidade musical que se caracteriza hoje mais como uma influência absorvida a seu favor, do que como um pastiche que chafurda na lama do plágio puro. Uma boa amostra é ‘To Be Where There’s Life‘, que por sinal é uma composição do guitarrista Gem Archer. E, embora o final de ‘The Turning‘ venha ao similar dedilhado de ‘Dear Prudence‘ (do famoso álbum branco, The Beatles, 1969), é uma boa inserção que não soou irritante como a introdução de piano de ‘Don’t Look Back In Anger‘. Quanto ao vocalista Liam, que ainda parece buscar o espírito de Lennon, ele consegue soa bem próximo às baladas de sua estrela-guia em ‘I’m Outta Time‘, é um pena que o slide na canção não soe tão suave como nas mãos de George Harrison, ao contribuir nos trabalhos do ex-parceiro de Beatles. Música que deveria vir a seguir de ‘The Turning‘, ouça e saberá o porquê. Já, ‘Falling Down‘ poderia dar lugar para ‘Lord Don’t Slow Me Down‘ que figura como bônus nas demais edições especiais do álbum.

Os trabalhos com violões por todo o álbum é belo destaque do álbum juntamente com a canção ‘(Get Off Your) High Horse Lady‘, uma das melhores composições que o Oasis já produziu. Enquanto ‘The Shock of the Lightning‘, que poderia figurar bem no álbum Be Here Now (1997) vai revitalizar as rádios que ainda tocam um bom rock de vez em quando entre os espasmos orgásticos eletrônicos produzidos para a garotada da geração MTV.

Dig Out Your Soul não é um álbum de grandeza para figurar como uma obra-prima, mas com certeza é grande o suficiente para abrir as portas da estrada que leva para o Olímpo do Rock, lugar onde a banda, ou pelo menos os Gallagher, consideram como seu lar.


Mais do mesmo (e isso é tão bom)!!!

AC-DC retorna do estúdio com álbum cheio de vitalidade e garante os primeiros lugares de vendas em vários países, mesmo com músicas vazadas na internet

Se tratando de AC/DC, não há como negar. O álbum Black Ice é o que se esperaria depois de um hiato de oito anos sem lançar nada de estúdio. As novas músicas são feitas da mesma estrutura de composição que tornaram a banda um mártir do rock clássico: guitarras afiadas, baixo e bateria com a precisão de uma máquina, fortes e rudes timbres setentistas, solos potentes, letras do mundo do rock, voz gritada e refrões para cantar em coro. Único fator de ineditismo fica com ‘Stormy May Day‘, em que a utilização de slides se sobressai para fazer a melhor canção do álbum, enquanto outras composições remetem à potência de Powerage, de 1978, e For Those About To Rock, de 1981. Ou seja, a corrente continua a toda carga. E mesmo que a banda esteja reproduzindo os mesmos volts, tudo é muito bem arquitetado para garantir a satisfação, tanto para quem toca, quanto de quem ouve. Os fiéis fãs agradecerão.

Texto também publicado no site Engenho


Manual de Influências, Vol. I

 

CHRIS ROBINSON – New Earth Mud (2002)

Guardadas as devidas proporções, o primeiro álbum solo do vocalista do Black Crowes, Chris Robinson, pode trazer a comparação ocorrida no lançamento do primeiro trabalho de sua banda, em 1990. Enquanto Shake Your Money Maker fazia a mídia especializada retirar a poeira dos discos do grupo Faces para se assegurar de suas suspeitas, o lançamento de New Earth Mud, em 2002, voltou-se os ouvidos para os primeiros álbuns solo do ex-vocalista do Faces, o hoje elegante-cafona Rod Stewart (sim, para os mais incrédulos e para os menos informados, Rod Stewart já fora um extravagante roqueiro nos anos 70). Enquanto no Black Crowes as guitarras puxavam as rédeas das músicas, como nos trabalhos do Faces, é no trabalho solo de Robinson que os violões e vocais ganham a frente das canções como nos álbuns de Stewart. Quer conferir a influência? Então assista os vídeos abaixo e veja Stewart no Faces, e Robinson no Black Crowes, para ver se o manual foi seguido à risca.

New Earth Mud traz as guitarras e teclados fazendo desenhos melódicos para iluminar violões que estão por todo o álbum. A voz de Robinson se apresenta menos rasgada, enquanto algumas letras carregam a paixão do vocalista pela atriz Kate Hudson, hoje sua ex-esposa, que ganha papel principal em ‘Katie Dear’, e recebe o Oscar de coadjuvante por ser inspiração em outras canções, como ‘Cold You Really Love Me’, ‘Safe In The Arms of Love’ e ‘She’s On Her Way’.

‘Untangle My Mind’ poderia passar por uma das faixas no segundo álbum de Lenny Kravitz, Mama Said (1991). Já, a funkeada ‘Ride’ traz o balanço de Sly and Family Stone para fazer a festa, enquanto Stevie Wonder de Superstition dança ao sol.

E esse Sol parece ser o outro inspirador do álbum. Desde as fotos da capa e encarte, até as músicas refletem o momento iluminado de Robinson. Enquanto canções como ‘Sunday Sound’, ‘Better Than The Sun’ e a já citada ‘She’s On Her Way’, servem de trilha sonora para manhãs iluminadas de verão. Outras como ‘Barefoot By The Cherry Tree’, ‘Fables’ e ‘Kids That Ain’t Got None’ ganham os raios de um pôr-do-sol vermelho, sereno e reflexivo.

A influência de um artista sobre outro é inevitável e benéfica para se ter um parâmetro para desenvolver um estilo próprio. Rod Stewart tem como sua maior influência Sam Cooke, mas sempre ficou apenas com o trabalho de vocalista, raramente tocando uma base de violão ou algum dedilhado no banjo. Robinson não deixou por menos, e vai um pouco mais além de sua maior influência. Pois se encarregou da percussão, de violões e guitarra base, além da direção artística. Não se rendendo ao caminho fácil dos últimos lançamentos de Stewart. Robinson percorre toda a cartilha do rock and roll, sabendo agregar as melhores qualidades de outros músicos.

Nos trabalhos solos de Stewart, o hoje Stone, Ronnie Wood era o responsável pelos arranjos e violões inspiradíssimos nas músicas que o vocalista beberrão explorava seus mais variados dotes vocais. No caso de Robinson, a parceria é com o músico-amigo Paul Stacey, que atualmente empunha a segunda guitarra no Black Crowes e, foi responsável por grande parte dos instrumentos deste álbum.

Para um primeiro disco solo de vendagem moderada, New Earth Mud ganhou bonificações em alguns países. A versão francesa recebeu três faixas ao vivo em formato acústico, enquanto a americana está acompanhada de um DVD com uma das apresentações do cantor e de Stacey nos violões. Por aqui, o disco só chegou via internet mesmo.

Rod Stewart no Faces

 

Chris Robinson no Black Crowes

 


Os “Ex” no My Space: Eddie Harsch

Quem se lembra da questão-clichê ‘Que fim levou …?’ e tem algum artista que se encaixaria no lugar das reticências?. A experiência investigativa pode ser reativada agora  com apenas alguns cliques através do MySpace, pois aquele músico que tocou em alguma banda de sucesso e que, após sua saída, não engatou uma carreira não divulgada pela grande mídia, pode ser encontrado fazendo algum trabalho interessante. É o caso de Eddie Harsch, ex-tecladista do Black Crowes, atualmente disponibilizando suas teclas, e seu fraseado bluesy, para a banda Bulldog, de Detroit.

A Bulldog lançou um álbum homônimo, disponível pelo site de música independente CD Baby, em que o folk-rock produzido é fortemente influênciado por pilares do  gênero como Gram Parsons, Bob Dylan e Neil Young, mas que remete bem mais para Ryan Adams, muito devido ao vocal de Kenny Tudrick, principal compositor da banda, guitarrista, que também atende pela egotrip de Bulldog.  Mas, a grande elegância nas composições se deve muito aos fraseados de Harsch – singelos e arrepiantes nos momentos precisos, e contemplativos em meios aos vocais, vide ‘South Dakota Sad Eye‘ – enquanto o pedal-steel de Pete Ballard cria o clima de filme western, como em ‘Shelter‘, bem como a melancolia bucólica, típica do instrumento,  em canções como ‘Badlands’ e ‘Just a Knife in the Back’. A abertura é bem Bod Dylan, com direito a gaita, em ‘Crash and Burn‘, e o álbum vai bem até o fim, com a obscura ‘Blinded‘, um elemento tipicamente inglês, um Beatles da fase Abbey Road. O álbum também reserva uma curiosa surpresa na penúltima faixa, ‘Ain’t Right’, que lembra, justamente, o repertório do primeiro álbum da ex-banda de Harsch, cujo qual ele não participou das gravações, pois entrou para a banda em 1991, em meio a turnê de divulgação do mesmo – o álbum Shake Your Money Maker (1990) teve suas a cargo de Chuck Leavell, tecladista dos Rolling Stones, mas que já  tocou com Allman Brothers, Eric Clapton e outros, mas isso já é outra história.

HISTÓRICO

eddie harsch

Harsch, que já havia tocado com os blueseiros Muddy Waters e Albert Collins, entrou para os Black Crowes em 1991, permanecendo com a banda  até 2006. O tecladista deixou seu posto  com alguns dias de diferença da saída  do  guitarrista Marc Ford, que partiu para carreira solo. A alegação oficial foi por problemas de saúde.

Seus trabalhos com o Black Crowes são: The Southern Harmony and the Musical Companion (1992), Amorica (1994), Three Snakes and One Charm (1996), By Your Side (1999), e Lions (2001), todos de estúdio. Ao vivo, com a banda sairam Live at the Greek (revisitando juntamente com Jimmy Page, clássicos do Led Zeppelin e covers de Blues, 2000), Live (2002), e Freak ‘N’ Roll…Into the Fog (2006), que saiu tanto em vídeo como em aúdio.


A VIDA É COMPLICADA

ALLMAN BROTHERS BAND

American University 12/13/70 (2002)

É complicado. Complicado porque a cada audição de American University 12/13/70, eu me pergunto por que uma banda que lançou um dos discos ao vivo mais legais da história – a saber, At Fillmore East – se prontificaria a cometer a heresia de lançar, trinta e dois anos depois, um ao vivo da mesma época? Poderia afirmar logo de cara que é mais um caça-níquel pronto para arrebatar o bolso dos corações mais fanáticos? Não quando um disco poderia vir da Allman Brothers Band com Duane Allman, um dos guitarristas mais bacanas do Southern Rock, já justificando a aquisição imediata. Principalmente porque Duanne morreu em um acidente de moto, em outubro de 1971.

Mas é complicado. As músicas do Fillmore foram distribuídas em vários lançamentos durante toda a carreira

da banda. A versão original ganhou automaticamente o emblemático rótulo de um dos melhores ao vivo de todos os tempos, contendo apenas seis faixas. Em fevereiro de 1972, sairia o misto de estúdio e ao vivo, Eat A Peach, com mais duas faixas dos shows no Fillmore. Em Duanne Allman Anthology, volumes I (1972) e II (1974), Don’t Keep Me Wonderin’ e Midnight Rider apareceriam retiradas do palco mais famosodos anos 60, mas até então eram inéditas, bem como Drunken Hearted Boy, que apareceria em 1989, na suntuosa caixa Dreams. Quando lançaram Fillmore Concerts, contendo quase que a totalidade das faixas espalhadas pelos lançamentos anteriores, o cheiro do bolso sendo lesado foi inevitável. Mas, para os mais entusiastas, em 2003 chega às lojas At Fillmore East (Deluxe Edition), contendo todas as faixas já apreciadas nos lançamentos anteriores. Então, você se perguntaria qual a finalidade de mais um lançamento? E ela se explicaria numa embalagem para deixar babar qualquer colecionador de CD’s. E depois de tudo isso, você se perguntaria, pra que um disco ao vivo lançado tantos anos depois.

Duanne também é o guitarrista das gravações de At Fillmore East, que, juntamente com Dickey Betts, formavam um enlace perfeito para bases e solos impecáveis. Durante o passar dos anos, a Allman Brothers continuou na ativa, mesmo depois da morte de Duanne, tendo vários guitarristas no seu front, mas nunca com um line-up tão magnânimo quanto aquela época. Isso explicaria bem o lançamento.

Mas ainda é complicado. Com um encarte simples, nenhuma das músicas apresentadas no show da American University são inéditas. A qualidade da gravação é inferior – o trabalho de remixagem e remasterização da Deluxe Edition é exemplar – e nenhuma delas se sobrepõe as versões retiradas dos shows do Fillmore, não acrescentando em nada as inspiradas versões apresentadas no show do Fillmore. A culpa pode até não ser da banda, que autorizou o lançamento, pensando nos fãs mais ardorosos. Ainda mais hoje em dia, em que todo mundo está cansado de saber que banda ganha dinheiro com show e não com vendagem de disco, ainda mais ao vivo. E, um registro, oficial ou não, de um show interessaria, teoricamente, para os que estavam na platéia e queiram guardar como lembrança.

É Complicado. Complicado com “C” maiúsculo porque este álbum chegou as minhas mãos através do meu melhor amigo, que me emprestou o artefato com todo o entusiasmo. COMPLICADO.

Assista o vídeo de In Memory of Elizabeth Reed no Fillmore!!!


SORRIA! VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO!!!

U2 – ZOO TV – Live from Sydney (DVD, 2006)

Início da transmissão…

Tudo o que você sabe está errado. É com esta frase que o show multimídia do U2 ganhou os estádios do mundo globalizado. Sidney foi o alvo registrado em 1993 para as futuras gerações que virão. Não troque de Canal. O discurso da salvação de Bono deixou de lado as bandeiras brancas. Ganhou velhos carros da Alemanha Oriental no papel de spots de luz, enquanto telas de alta definição lhe entorpecem de informação. Rock é entretenimento. Cores quentes, frias. Timbres ora sintéticos, ora agressores. TV digital era apenas um brinquedo nas mãos de engenheiros eletrônicos. Arte é manipulação.

Não Pare. Seguindo os passos da aventura pelo novo, iniciada com Achtung Baby (1991), e retificada com o estranho mundo de Zooropa (1993), o show é constituído com mais de 50% das músicas destes álbuns. A interatividade é garantida por um estúdio de TV com uma antena satélite e mais de 30 toneladas de som, além de imensos telões, projetores, monitores e paredes de vídeo. Assista mais TV. Bono manda imagens diretamente de sua câmera de mão, ou simula um dueto virtual com Lou Reed na cover de Satelite of Love. A libido é posta em cheque quando uma dançarina do ventre serpenteia pelo palco ao som de Mystirous Ways. Serviço não incluso. No meio de toda a tecnologia megalomaníaca do show a banda resolve se aproximar metaforicamente da platéia deixando o palco principal, encarando uma rampa de quase 46 metros, para tocar algumas canções no centro do estádio. Todo artista é um canibal. Obviamente, os clássicos de estádio da banda estão presentes: Bullet the Blue Sky, With Or Without You, New Year’s Day, e o coro é perceptível em Pride e Where the Streets Have No Name. Isto não é um ensaio.

Pare. A banda utilizou das próprias armas dos mass media para, supostamente embasados na teoria crítica, metralhar as manipulações da indústria cultural num show que apresenta um Bono integrado com a persona The Fly, ou mesmo o apocalíptico Mister McPhisto que ironiza o capitalismo e o sistema imperialista dos principais governantes do primeiro mundo em supostas ligações diretas do palco. Religião é um Clube. O lançamento em DVD de Zoo TV – Live From Sydney em 2006 se torna automaticamente um registro clássico para qualquer pessoa envolvida com música – de produtores a apreciadores -, além de ser um registro para os fãs mais calorosos do U2. Acredite em tudo.

…fim da transmissão


COLETÂNEA DE INÉDITAS

RYAN ADAMS – Easy Tiger (2007)

Como um filho pródigo do country-rock, Adams ataca novamente com mais uma bolachinha, sendo um dos artistas que mais deve sofrer da síndrome da composição prolífica – Jack White compete com ele ponto a ponto – emendando um trabalho atrás de outro, entre uma turnê e outra. Férias não devem constar no vocabulário do caipira roqueiro.

Com faixas curtas, Easy Tiger pode figurar como uma coletânea de inéditas, pois o material deste disco parece conter um pouco de cada álbum que o músico vem produzindo desde o início desta década. Pearls on a String e Tears of Gold parecem terem saído do country Jacksonville City Nights (2005), enquanto Halloween Head e Two Hands poderiam figurar o outro extremo de Adams, como em Rock ‘n’ Roll (2003), cujo título já define o conteúdo. Dos soturnos Love is Hell (2004) e 29 (2006), as faixas Oh My God, Whatever, Ect e I Taught Myself How To Grow Old, que fecha o álbum, seriam as bolas da vez. Do primeiro álbum, o folk Heartbreaker (2000), um forte exemplo seria a bela Off Broadway. Já The Sun Also Sets e Goodnight Rose cairiam bem em Cold Roses (2005), que garantiria a taça de ouro de melhor álbum, se Adams não tivesse feito Gold (2001). A dobradinha Two e Everybody Knows poderiam ser lados B deixados fora do badalado álbum.

Provavelmente, Easy Tiger não vá figurar entre as mais celebres produções de Adams. O lançamento de 2007 se equilibra com o mediano Demolition (2002). Embora para iniciados, é tiro certeiro de agrado. Para quem não conhece, ou não tem nenhum álbum do americano, Easy Tiger é um bom motivo para começar a ouvir sem precisar mastigar álbuns mais complexos da carreira do filho de Jacksonville.

Mais Ryan Adams? O Discoteclando te fornece mais aqui!!!


UM NOVO LATIDO

CHACHORRO GRANDE – Todos os Tempos – 2007

Esperado há tempos, prometido com firmeza Rock ‘n’ Roll, o quarto latido dos gaúchos da Cachorro Grande está no mercado, Todos os Tempos, e está na internet para deleite da cachorrada fã de um bom rock ‘n’ roll feito com a velha química do ao vivo em estúdio.

As influências sixties não mudaram nada – Beatles, Stones, Who, Neil Young e outras figurinhas carimbadas – mas ganharam força de outras referências que também se inspiraram nos medalhões do rock clássico para reinar no início da década de 90 – Stone Roses, Primal Scream e Verve podem exemplificar bem.

Para conseguir alimentar a cachorrada de plantão, o site www.todosostempos.com.br disponibiliza para o lunático fã da banda mais rock ‘n’ roll do Brasil, ouvir antes de se decidir pelo disquinho convencional, ou seja, o baixado pela pista livre da internet…(rs) ou se prefere a neo-tradição de comprar o CD. Seja qual for a ordem do bolso, Todos os Tempos garante que as próximas horas de audição serão muito boas!!!

Mais Cachorro Grande? Clique aqui!!!


O FILÓSOFO DO ROCK

ZAPPA – Detritos Cósmicos (livro, 2007)

Com as parcas investidas na literatura musical no país, há poucos lançamentos deste estilo que agregam a biblioteca dos interessados em música, afins de momento e fãs de carteirinha de determinados artistas. Apostando neste filão, a Editora Conrad está mais uma vez desbravando barreiras comerciais e põe no mercado uma ótima referência para tentarmos entender um pouco do complexo pensamento musical e sociológico do grande pensador-maestro-guitarrista-e-crítico-ferrenho-do-way-of-life-americano, Frank Zappa.

Capitaneado pelo jornalista Fábio Massari, especialista em música e um estudioso do pai da Mothers of Invention, o livro Detritos Cósmicos traz um apanhado de artigos, entrevistas e mais uma seleção da melhor e mais relevante safra do prolífico guitarrista e quase candidato a presidência dos EUA se não fosse sua morte prematura em decorrência de um câncer na prostata em 1993.

Zappa não pode ser rotulado como rock, jazz, ou qualquer outra segmentação. Do seu início com a psicodelia de Freak Out!!! passando por obras que mesclam o jazz mais quebrado e roqueiro do mundo (vide Waka-Jawaka e Hot Rats), até as viagens de pura tiração de sarro de vários outros álbuns – destaque para a pirada Baby Snakes, do álbum Sheik Yerbouti – os sons saídos da cabeça de Zappa são um mundo a parte na história da música contemporânea.

Além das palavras de Massari, o livro é recheado da vida e a sobrevida do narigudo músico através das viagens físicas e espirituais, visuais e auditivas em depoimentos emocionados, ilustrações e pirações de especialistas – em alta ou baixa escala – que provavelmente tentaram entender a cabeça do gênio, mas acabaram se rendendo a sua completa e complexa obra. Entrevistas obrigatórias fazem do livro um instrumento necessário para tentar desmembrar umas das cabeças mais malucas e criativas da música.

Depois desta maravilhosa introdução ao excêntrico universo de Frank Zappa, apesar de o livro conter grande material bibliográfico, resta a Massari começar a escrever a biografia brasileira definitiva deste gênio musical incompreendido.

Não conhece o Zappa? Então veja o que ele é capaz de fazer:


NA DISCOTECA DO CREDENCIAL TOSCA

O DISCOTECLANDO criou uma maneira virtual de se passear pelas dicotecas dos amigos para conferir o que é que está rolando no som deles. A estréia ficou a cargo da nossa amiga jornalista-baterista-blogueira Ana Alice Gallo que mantém as good vibrations do mundo cultural no http://credencialtosca.blogspot.com. Enquanto isso, nosso editor aproveita para estrear a coluna Discoteclando no www.revistasonora.com. Sem mais milongas… com vocês…

CLAUSTROFOBIA SONORA

(Ou nove razões para vivenciar In Utero, do Nirvana)

NIRVANA – In Utero (1993)

Ok, galera, quando o Giul me convidou para ocupar esse ilustre espaço por um post, pensei em resenhar algo bem ao gosto do anfitrião, mas duvidei que pudesse fazê-lo melhor que o dono da casa. Pensei também que a idéia de trazer outras pessoas para o Discoteclando pudesse também fazer soprar outros ventos por esses cantos, daí escolher um álbum tão alhures – mas, na minha humilde opinião, bastante importante – quanto esse. De qualquer forma, espero que vocês gostem da viagem… ou, pelo menos, sobrevivam à ela!

1 – Sentir como um único acorde – no caso, o primeiro do álbum – é capaz de expressar a dor acumulada em anos de problemas no estômago e outras adjacências de um ser humano e dar, de alguma forma, a idéia do que se segue.

2 – Ouvir em forma de canção o livro “O perfume”, de Patrick Süskind, atualmente também em cartaz nos cinemas. A música “Scentles Apprentice” foi baseada nessa obra, que narra a história de um assassino que escalpela donzelas para fazer perfumes.

3 – Relembrar a maior declaração de amor da história dos anos 90, “Heart Shaped Box”, tão romântica quanto à moça que a inspirou, miss Courtney Love.

4 – Sentir Freud revirar-se em sua tumba de felicidade com a necessidade de um marmanjo de voltar a ser um bebê. Em seu livro “Beijar o Céu”, o jornalista Simon Reynolds analisa cada detalhe deste álbum que nos remete ao psiquiatra mais pop do século passado. Mas se você ouvir “Rape Me”, já basta.

5 – Desfrutar de recursos de gravação que levam o ouvinte a uma sala hermeticamente fechada, oca como o próprio útero, de onde Kurt Cobain, Dave Ghrol e Kris Novoselic parecem tocar. A banda conseguiu tirar o máximo de sua estadia em um estúdio para passar a sensação real de que você está do lado de fora, enquanto eles estão lá dentro.

6 – Essa mesma gravação consegue finalmente captar a energia da banda ao vivo – quando eles conseguiam, de fato, tocar alguma coisa – com distorções abusadas e um caminho sonoro que hipnotiza o ouvinte, exatamente como Kurt costumava fazer com seus espectadores.

7 – Presenciar os primórdios do que literalmente evoluiria para “Do the Evolution”, do Pearl Jam. Ouça “Very Ape”e tente não ver semelhanças.

8 – “Nevermind” já havia entrado para a história, mas tanto “Bleach”, que veio antes, como “Incesticide”, que veio depois, captaram apenas os fãs mais fervorosos. A maturidade do trabalho em estúdio de “In Utero” alçou o Nirvana ao posto de grupo a ser digerido em décadas posteriores. Se você conseguir ouvi-lo na íntegra sem enlouquecer de alguma forma ou perturbar o dedo mindinho da sua alma, saiba que é um homem de gelo. Na verdade, se você sobreviver à “Francis Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”, já pode se considerar um iniciado.

9 – E por último, “All Apologies”, pra mim, condensa toda a melancolia contida na existência de um ser humano que conseguiu conquistar o mundo despejando seus fantasmas mais horripilantes em acordes (como os que usa nesse álbum). E, também por isso, pede desculpas.


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