Uma patada e tanto para esquentar os ouvidos
Noite fria. Virada Cultural Paulista rolando em quatro cantos da cidade. Foi nessas circunstâncias que a Pata de Elefante pisou, pela primeira vez, num palco em Bauru. Embora com todos os ingressos esgotados, boa parte das cadeiras do Teatro Municipal ficaram vazias. Isso não foi impedimento para que os músicos Gabriel Guedes, Daniel Mossmann – que se revezam entre baixo e guitarra – e Gustavo Telles (bateria) fechassem a cara. Pelo contrário, o que se percebe nitidamente em um show da Pata de Elefante é, justamente, que o prazer em tocar vem antes de tudo – seja onde estiver, com ou sem público, faça calor ou frio, e estava um freezer à noite em questão – e eles sabem aproveitar isso, pois, o sorriso estampado nas faces do trio conforme executavam seu repertório era tamanho que, poderia não ter nenhuma pessoa ali, que não faria a mínima diferença – a banda curte o que faz. Curtição que começou em 2002 e já registra dois álbuns – Pata de Elefante (2004) e Um Olho No Fósforo, Outro Na Fagulha (2008) – compostos de muita selvageria sixties, típica de grandes bandas da época – como Cream, Jimi Hendrix Experience e Blue Cheer – aliados a uma preocupação melódica e grooves chapantes, tudo respaldado por levadas precisas e sonoridades rústicas, perfeitas para caracterizar o ataque sonoro do trio ao vivo, como o peso de um elefante. Apesar do show curto, quem estava lá pode conferir que música instrumental não precisa ser somente cerebral, e sim, uma viagem heterogênea, que cativou os presentes. E olha que, até mesmo no momento em que a bateria ameaçou sair em disparada de cima de seu elevado, não foi motivo para tirar a concentração-curtição do som elaborado pelos músicos.
A química estilo power-trio, com uma cozinha potente, permeada pelo fraseado surf music da guitarra, é influência cristalina nas veias da Pata. Eles demonstram boas dinâmicas, feeling certeiro, cadências que fizeram escola e, até pelo simples aparato cênico, deixando a música falar mais alto, resultou no típico sabor lisérgico dos pubs, atraindo os ouvidos pelo diferencial. Atualmente, ver, ouvir e sentir um som feito com tanta honestidade é o melhor a se fazer numa noite fria.
Sinta o clima:
Saindo uma quentinha: Warpaint Live
Um ano após o lançamento de Warpaint, que quebrou o hiato de sete anos sem material novo, a banda Black Crowes retorna com o conteúdo do álbum estendido e ao vivo.
O dia 28 de Abril marca, lá fora, o lançamento de Warpaint Live ao mercado da audição, seja ele físico ou virtual, embora sabemos que nas vias digitais, a possibilidade do lançamento está relacionada ao seu vazamento. No formato físico, com edição pela Eagle Records, são dois CD’s que incluem as interpretações viscerais e apaixonadas da atual turnê. Os registros foram retirados das apresentações sold out que a banda fez em Los Angeles. A primeira bolacha está todo o material de Warpaint devidamente retrabalhado para o palco, com as sempre viagens musicais que uma boa jam band sempre preza por realizar. Na outra parte do pacote figuram duas autorias que ajudaram os irmãos Robinson a serem reconhecidos como compositores do mais precioso rock and roll clássico promovido nos anos 90, aliado de vários covers feitos nos anos 60 e 70, como, por exemplo, Torn and Frayed, peça fácil nas apresentações do grupo desde o seu início, uma viagem folk da obra-prima dos Stones, Exile On Main St. (1972). Um registro em DVD com o conteúdo das apresentações da Euphoria or Bust Tour – que celebram o álbum Warpaint e o debuto em vídeo para os novos integrantes: o tecladista Adam MacDougall, e o guitarrista Luther Dickinson – está prometido para sair ainda este ano.
Warpaint Live pode não ser uma grande notícia de lançamento. Pois, não só por parte da atual desvinculação de música através do suporte físico. Mas, devido há dois fatores protagonizados pela banda: os próprios membros incentivaram os fãs a gravarem seus shows desde o início da carreira, causando um conglomerado de material ao vivo disponível pela internet; e, recentemente, a criação do Live Black Crowes, site específico para venda de downloads dos shows, há material disponível desde a turnê de 1996, que promoveu o álbum Three Snakes and One Charm, do mesmo ano. Mas, é óbvio, que Warpaint Live ganha pontos através de uma boa mixagem e masterização de estúdio, pois a maioria das gravações que pipocam pela internet não passaram pelo tratamento de uma boa mesa de som.
Quanto ao DVD, previsto para sair dia 30 de junho, este sim, pode surpreender. Não só por existir um registro visual da atual formação, mostrando seu excelente entrosamento, mas para atualizar a experiência do incrível vídeo Freak ‘n’ Roll… Into the Fog (2006) que, dentro de um ‘Olímpo do Rock’ credenciado como Fillmore, em São Francisco, a banda registrou a volta, mesmo que não por muito tempo, da criatividade e personalidade musical ímpar de Marc Ford, o guitarrista que projetou os solos mais doidos e setentistas que uma banda voltada para as raízes do rock clássico poderia almejar.
Abaixo, uma amostra da Euphoria or Bust Tour:
E a turnê anterior, All Join Hands, que gerou o DVD
Freak ‘n’ Roll …Into The Fog:
Leia a resenha do álbum Warpaint publicada aqui no Discoteclando.
Bola dentro, Bola Fora (ou Good Times, Bad Times)
O Led Zeppelin como era nunca mais será visto ao vivo. Em compensação, outras grandes bandas podem estar por aí, destilando o velho rock ‘n’ roll com a mesma carga de grandes lendas
O Discoteclando abre 2009 com um artigo-desabafo: infringindo a lei do fã, metendo o pau na maior banda de todos os tempos: Led Zeppelin, ou melhor, em parte de seus integrantes. Desde o show tributo a Ahmet Ertegun em dezembro de 2007 na arena londrina O2, que a banda reunida com o herdeiro Jason Bonham nas baquetas resulta em especulações, notas, comentários e um suspiro qualquer de um dos integrantes servem para ser notícia de jornal relatando sobre uma possível volta da banda. No momento a reportagem da BBC é que está gerando mais frenesi, devido ao fato da declaração partir do empresário de Jimmy Page, alegando que a banda esta em vias de sair em turnê, lançar um álbum de inéditas, e tudo isso sem Plant, que teve a decência de não concordar com a reunião, já que sua voz não alcança mais as notas necessárias que fizeram à fama do vocalista nos anos 70, estando mais para o clima etéreo da parceria com a cantora Allison Krauss. Além do óbvio: John Bonham está morto. Ou seja, o Led Zeppelin como era nunca mais será visto ao vivo. Nomes como o de Chris Cornell e Steven Tyler, que já são conhecido do grande público são lançados a esmo para desespero dos fãs mais incólumes.
A maneira encontrada através das especulações é de que Page, Jones e Jason estariam de olho em vocalistas e que isso não chamaria Led Zeppelin. Até aí tudo bem, não usando o sagrado nome e produzindo algo novo é digno. E, além do mais, eles já tem grana além do necessário, sendo uma reunião simplesmente para satisfação do ego. Vão se divertir e de quebra divertir uma galera que não pode ver o Zeppelin original em palco.
Em novembro de 2008, a banda completou 40 anos desde sua primeira reunião em um porão em Londres em que verificaram a química perfeita dos quatro. A partir disto, tudo virou história recontada inúmeras vezes de maneiras diversas, as certas e as erradas. A verdadeira pulga atrás da orelha para o Led Zeppelin fica para a não comemoração destes 40 anos. Em novembro, data oficial da formação da banda, nada rolou. Nem dezembro, data do lançamento do primeiro álbum na Inglaterra. Este mês marcaria o lançamento de Led Zeppelin I no resto do globo. Então, onde estão as tradicionais comemorações que geralmente embalam estas datas com produtos de consumo para os fãs mais fanáticos e para os novos iniciados que ainda não contemplam a plenitude de suas gravações?!!? O show da O2 foi gravado, mas até agora nenhuma linha sequer foi dada sobre seu lançamento.
Para que essa comemoração não passe em branco por aqui no Discoteclando, segue a baixo um vídeo da nossa aposta real de uma banda já tem conteúdo para dar – e dará – o que falar em 2009, tocando a música que abriu o show de reunião do Led Zeppelin.
Nos moldes do Raconteurs, a Relentless 7 – formada por Ben Harper (guitarra, slide e vocais), Jason Mozersky (guitarra), Jesse Ingalls (baixo e teclas) e Jordan Richardson (bateria) – promete ser um dos melhores lançamentos do ano, se eles lançarem algo, claro. No site oficial, além de ‘Good Times Bad Times’ do Led, há ‘Purple Rain’ do Prince, numa versão que humilha a original, e a música que gerou essa reunião, ‘Serve Your Soul’, uma excêntrica pancada no formato zeppeliniano que apareceu primeiramente no álbum Both Sides Of The Gun, do Ben Harper já com a formação do Relentless 7. Já no YouTube dá para conferir a pegada da banda ao vivo. Tem até Under Pressure, para quem não está com tesão de ver o Queen + Paul Rodgers tocando-a, mas quer apreciar um velho material revigorado em novas mãos. Obviamente influenciados pelo Zeppelin, os petardos originais deles não ficam atrás de grandes composições dos dinossauros do rock. Isto sim é digno de se ganhar as manchetes de jornais.
Mais do mesmo (e isso é tão bom)!!!
AC-DC retorna do estúdio com álbum cheio de vitalidade e garante os primeiros lugares de vendas em vários países, mesmo com músicas vazadas na internet
Se tratando de AC/DC, não há como negar. O álbum Black Ice é o que se esperaria depois de um hiato de oito anos sem lançar nada de estúdio. As novas músicas são feitas da mesma estrutura de composição que tornaram a banda um mártir do rock clássico: guitarras afiadas, baixo e bateria com a precisão de uma máquina, fortes e rudes timbres setentistas, solos potentes, letras do mundo do rock, voz gritada e refrões para cantar em coro. Único fator de ineditismo fica com ‘Stormy May Day‘, em que a utilização de slides se sobressai para fazer a melhor canção do álbum, enquanto outras composições remetem à potência de Powerage, de 1978, e For Those About To Rock, de 1981. Ou seja, a corrente continua a toda carga. E mesmo que a banda esteja reproduzindo os mesmos volts, tudo é muito bem arquitetado para garantir a satisfação, tanto para quem toca, quanto de quem ouve. Os fiéis fãs agradecerão.
Texto também publicado no site Engenho
Manual de Influências, Vol. I
CHRIS ROBINSON – New Earth Mud (2002)
Guardadas as devidas proporções, o primeiro álbum solo do vocalista do Black Crowes, Chris Robinson, pode trazer a comparação ocorrida no lançamento do primeiro trabalho de sua banda, em 1990. Enquanto Shake Your Money Maker fazia a mídia especializada retirar a poeira dos discos do grupo Faces para se assegurar de suas suspeitas, o lançamento de New Earth Mud, em 2002, voltou-se os ouvidos para os primeiros álbuns solo do ex-vocalista do Faces, o hoje elegante-cafona Rod Stewart (sim, para os mais incrédulos e para os menos informados, Rod Stewart já fora um extravagante roqueiro nos anos 70). Enquanto no Black Crowes as guitarras puxavam as rédeas das músicas, como nos trabalhos do Faces, é no trabalho solo de Robinson que os violões e vocais ganham a frente das canções como nos álbuns de Stewart. Quer conferir a influência? Então assista os vídeos abaixo e veja Stewart no Faces, e Robinson no Black Crowes, para ver se o manual foi seguido à risca.
New Earth Mud traz as guitarras e teclados fazendo desenhos melódicos para iluminar violões que estão por todo o álbum. A voz de Robinson se apresenta menos rasgada, enquanto algumas letras carregam a paixão do vocalista pela atriz Kate Hudson, hoje sua ex-esposa, que ganha papel principal em ‘Katie Dear’, e recebe o Oscar de coadjuvante por ser inspiração em outras canções, como ‘Cold You Really Love Me’, ‘Safe In The Arms of Love’ e ‘She’s On Her Way’.
‘Untangle My Mind’ poderia passar por uma das faixas no segundo álbum de Lenny Kravitz, Mama Said (1991). Já, a funkeada ‘Ride’ traz o balanço de Sly and Family Stone para fazer a festa, enquanto Stevie Wonder de Superstition dança ao sol.
E esse Sol parece ser o outro inspirador do álbum. Desde as fotos da capa e encarte, até as músicas refletem o momento iluminado de Robinson. Enquanto canções como ‘Sunday Sound’, ‘Better Than The Sun’ e a já citada ‘She’s On Her Way’, servem de trilha sonora para manhãs iluminadas de verão. Outras como ‘Barefoot By The Cherry Tree’, ‘Fables’ e ‘Kids That Ain’t Got None’ ganham os raios de um pôr-do-sol vermelho, sereno e reflexivo.
A influência de um artista sobre outro é inevitável e benéfica para se ter um parâmetro para desenvolver um estilo próprio. Rod Stewart tem como sua maior influência Sam Cooke, mas sempre ficou apenas com o trabalho de vocalista, raramente tocando uma base de violão ou algum dedilhado no banjo. Robinson não deixou por menos, e vai um pouco mais além de sua maior influência. Pois se encarregou da percussão, de violões e guitarra base, além da direção artística. Não se rendendo ao caminho fácil dos últimos lançamentos de Stewart. Robinson percorre toda a cartilha do rock and roll, sabendo agregar as melhores qualidades de outros músicos.
Nos trabalhos solos de Stewart, o hoje Stone, Ronnie Wood era o responsável pelos arranjos e violões inspiradíssimos nas músicas que o vocalista beberrão explorava seus mais variados dotes vocais. No caso de Robinson, a parceria é com o músico-amigo Paul Stacey, que atualmente empunha a segunda guitarra no Black Crowes e, foi responsável por grande parte dos instrumentos deste álbum.
Para um primeiro disco solo de vendagem moderada, New Earth Mud ganhou bonificações em alguns países. A versão francesa recebeu três faixas ao vivo em formato acústico, enquanto a americana está acompanhada de um DVD com uma das apresentações do cantor e de Stacey nos violões. Por aqui, o disco só chegou via internet mesmo.
Rod Stewart no Faces
Chris Robinson no Black Crowes
Os “Ex” no My Space: Eddie Harsch
Quem se lembra da questão-clichê ‘Que fim levou …?’ e tem algum artista que se encaixaria no lugar das reticências?. A experiência investigativa pode ser reativada agora com apenas alguns cliques através do MySpace, pois aquele músico que tocou em alguma banda de sucesso e que, após sua saída, não engatou uma carreira não divulgada pela grande mídia, pode ser encontrado fazendo algum trabalho interessante. É o caso de Eddie Harsch, ex-tecladista do Black Crowes, atualmente disponibilizando suas teclas, e seu fraseado bluesy, para a banda Bulldog, de Detroit.
A Bulldog lançou um álbum homônimo, disponível pelo site de música independente CD Baby, em que o folk-rock produzido é fortemente influênciado por pilares do gênero como Gram Parsons, Bob Dylan e Neil Young, mas que remete bem mais para Ryan Adams, muito devido ao vocal de Kenny Tudrick, principal compositor da banda, guitarrista, que também atende pela egotrip de Bulldog. Mas, a grande elegância nas composições se deve muito aos fraseados de Harsch – singelos e arrepiantes nos momentos precisos, e contemplativos em meios aos vocais, vide ‘South Dakota Sad Eye‘ – enquanto o pedal-steel de Pete Ballard cria o clima de filme western, como em ‘Shelter‘, bem como a melancolia bucólica, típica do instrumento, em canções como ‘Badlands’ e ‘Just a Knife in the Back’. A abertura é bem Bod Dylan, com direito a gaita, em ‘Crash and Burn‘, e o álbum vai bem até o fim, com a obscura ‘Blinded‘, um elemento tipicamente inglês, um Beatles da fase Abbey Road. O álbum também reserva uma curiosa surpresa na penúltima faixa, ‘Ain’t Right’, que lembra, justamente, o repertório do primeiro álbum da ex-banda de Harsch, cujo qual ele não participou das gravações, pois entrou para a banda em 1991, em meio a turnê de divulgação do mesmo – o álbum Shake Your Money Maker (1990) teve suas a cargo de Chuck Leavell, tecladista dos Rolling Stones, mas que já tocou com Allman Brothers, Eric Clapton e outros, mas isso já é outra história.
HISTÓRICO
Harsch, que já havia tocado com os blueseiros Muddy Waters e Albert Collins, entrou para os Black Crowes em 1991, permanecendo com a banda até 2006. O tecladista deixou seu posto com alguns dias de diferença da saída do guitarrista Marc Ford, que partiu para carreira solo. A alegação oficial foi por problemas de saúde.
Seus trabalhos com o Black Crowes são: The Southern Harmony and the Musical Companion (1992), Amorica (1994), Three Snakes and One Charm (1996), By Your Side (1999), e Lions (2001), todos de estúdio. Ao vivo, com a banda sairam Live at the Greek (revisitando juntamente com Jimmy Page, clássicos do Led Zeppelin e covers de Blues, 2000), Live (2002), e Freak ‘N’ Roll…Into the Fog (2006), que saiu tanto em vídeo como em aúdio.
TOP OF THE ROCK’S 2007
Robert Plant & Alisson Krauss – Raising Sand (Outubro)
Alisson Krauss é a expressão do bluesgrass que Robert Plant, ex-vocalista do Led Zeppelin, sempre desejou ser. As versões de canções tradicionais e outras de qualidade ímpar apresentam uma energia sobrenatural, rústica – mas com tratamento sonoro moderno – para duas vozes que mereciam se encontrar. O estado de pureza deste álbum é apresentado através de um ritmo originalmente americano, muito mais próximo do som que Plant protagonizou com sua antiga banda, do que com as viagens orientais em seus últimos álbuns solo.
Iron and Wine – The Shepherd’s Dog (Setembro)
A voz quase sussurrada da banda de um homem só, Samuel Beam, teve sua produção low-profile transmutada para um álbum de qualidade peculiar, para que as nuances musicais casassem de maneira vital. Do folk tipicamente americano de voz e violão, emergiu uma forma em que os ritmos e percussões climatizam a mente para uma viagem musical por outras terras. Instrumentos e ritmos não convencionais ao estilo anglo-saxônico – oriundos da América Latina, ou percussões orientais – aparecessem nas composições deste álbum, criando um minimalismo musical extraordinário e extremamente saudável de audição.
Patti Smith – Twelve (Abril)
A poeta do rock sempre protagonizou covers com excelência, originalidade e muitas intervenções nas letras. Neste álbum ela simplesmente escolheu canções que tivessem força em sua mente, que lhe agradassem, e mostrou como elas podem em muitos momentos serem melhores do que são nas suas versões originais. Do mais inusitado, como Everybody Wants to Rule The World, do Tears for Fears – que aparece aqui com muito mais impacto do que na original – a esperada Gimme Shelter, dos Stones – trazendo o clima pesado da gravação original, esquecida um pouco das versões apresentadas ao vivo pelos autores – há também a versão campestre para Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, ou com desfecho onírico de Pastime Paradise, Patti prova que, tratados com respeito e seriedade, essas canções podem parir novos sentimentos, reacender outros já esquecidos, e dar a verdadeira paisagem para algo que não era tão comovente.
Wilco – Sky Blue Sky (Maio)
A banda de Jeff Tweedy protagonizou um álbum em que os delírios guitarrísticos de Neil Young se unem a melodia pop de Paul McCartney, quando este estava na fase mais introspectiva dos Beatles. A banda gravava enquanto compunha o álbum, isso fez com que a sensibilidade da criação fosse sentida através das caixas de som. Este é provavelmente o melhor álbum que o Wilco produziu até o momento. Já foi resenhado aqui anteriormente.
Amy Winehouse – Back To Black (Dec-2006/2007)
Como o álbum mais desbocado e comentado de 2007 teve sua primeira versão lançada em 19 de Dezembro de 2006, e as outras seis versões em 2007, não podemos dar de ombros, e dar as boas vindas para a black music da senhora da taberna, Amy Winehouse. As canções são cheias de desespero e bebida.
Amy apresenta a doçura da dor de seu amor em letras pesadas, enquanto o soul que se espalha pelo álbum é moderno e, ao mesmo tempo, caracteristicamente focado na geração Motown. Se tivesse lançado pela gravadora em sua fase áurea, ninguém perceberia a diferença.
UMA REALIDADE AMERICANA
Grateful Dead – American Beauty (1970)
No caso do Grateful Dead, admito o contrário. Nada que a banda tenha feito antes de American Beauty, seu sexto álbum, pode se considerar tão bacana quanto esse lançamento do final de 1970. O Dead, como é carinhosamente conhecido pelos seus fãs, sempre foi mais adepto a viagem sonora dos shows, do que nas viagens lisérgicas de estúdio. Suas apresentações renderam infinitos registros – piratas e oficiais – com extensas jam’s em poucas músicas. Eles tornaram-se a melhor representação musical de toda a manifestação hippie que rolava na Costa Oeste dos Estados Unidos.
American Beauty parece ser a ressaca sobre a “infinita” festa que foram os lisérgicos anos 60. Sem longos solos de guitarras, ou músicas intermináveis, a beleza deste registro está em muitos violões, piano, bandolim e instigantes pensamentos sobre o que estava acontecendo em volta da banda, sobre a vida após o sonho, e a visão da realidade. Isto é posto em cheque na capa do disco: o desenho psicodélico na capa sugere a leitura de American Reality, invés da beleza original.
As inúmeras tragédias pessoais e familiares dos integrantes fomentaram letras que buscavam espiritualidade no lugar dos prazeres corporais. O misto de country, blues, folk e soul são o caldo para letras sobre a natureza humana, a morte, e o passar do tempo. A seqüência das 10 canções é tão perfeita, que a inclusão de faixas bônus na edição remasterizada em CD, acaba não fazendo muita diferença.
E como a realidade brasileira é outra, American Beauty sofreu a falta de interesse do braço nacional da multinacional Warner, detentora desta gravação, pois nunca lançou a bolacha no país. Já sua pequena concorrente, a gravadora ST2, lançou por aqui em DVD, pela série Classic Albuns, ‘Anthem to Beauty’, com o making of de dois clássicos da banda, o próprio American Beauty acrescido do difícil Anthem of the Sun, de 1968.
PRA QUEM NÃO VIU SHINE A LIGHT, E PRA QUEM VIU TAMBÉM…
Esqueça os comentários que você ouviu por aí, os que você leu em tantas outras publicações, ou mesmo aquilo que você espera de um show dos Rolling Stones. O registro no Beacon Theater em 2006 por Martin Scorsese sobre a longevidade dos Rolling Stones não é apenas isso, é um documento distinto dos demais registros de shows da banda.
Então aqui vai alguns detalhes que só a visão de Scorsese teve a peculiaridade de encarar, e outros que a gente perceber só por ser Rock and Roll:
- Scorsese soube filmar tudo aquilo que não foi filmado nos muitos registros já existentes. Suas experiências anteriores, na área e mesmo nos seus filmes, deram a peculiar visão para filmar a banda mais imprevisível do planeta.
- a cumplicidade entre todos da banda é realmente um resultado de anos de convivência, e Mick Jagger e Keith Richards já superaram as divergências do passado. A intimidade dos dois ao dividir um microfone é um desses pontos que são emblemáticos na película.
- Ronnie Wood é o membro mais Rolling Stones entre todos os outros integrantes que já passaram pela banda. E a costura de guitarras entre ele e Richards é providencial, como o velho pirata Sparrow diz nas entrevistas que Scorsese resgatou para o show ter a acunha de documentário: “Somos péssimos sozinhos, mas juntos valemos por dez”.
- Keith Richards: a cusparada de cigarro; a indiferença para quem é Cristina Aguilera; a reverência transposta em uma guitarra dada, em cima do palco, para Buddy Guy; o fato de estar feliz simplesmente de estar aqui; a alegria de tocar guitarra, tanto para ele quanto para o público, e de qualquer outra coisa estampada em sua face; o desapego sobre sua própria fama.
- o fato de Charlie Watts ser um dos melhores bateristas de rock sem precisar fazer nenhum solo, e não pintar os cabelos brancos.
- que o convidado Jack White parecia uma criança numa loja de brinquedos, embasbacado com quem dividia o palco.
- que os extras do futuro DVD devem ser do caraleo. Acima da importância de ver esse registro nos cinemas, ter isso em sua discoteca é inevitável e obrigatório.
- Embora a cada close em um determinado músico e seu instrumento, o som deste salta nas caixas de som dos cinemas, vindo para o primeiro plano e mostrando detalhes que geralmente ficam mixados balanceadamente em registros para consumo em massa, a trilha sonora de Shine A Light – que você pode ouvir no trilhasmp3 – é o melhor registro de um show dos Stones desde Get Yer Ya-Ya’s Out (1970), que já é um clássico de gravações ao vivo.
- e quem não gosta de Rolling Stones e de Martin Scorsese e não passar a gostar depois de ver esse registro, eu insisto: vai ouvir easy listing numa sala de dentista qualquer para depois arrancar todos os dentes sem anestesia, afinal, não aparecerá no mundo ser humano mais insensível. E, para quem já gosta, já deve ter percebido tudo isso aqui.
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SEXO SONORO
Tina Turner – Acid Queen – 1975
Imagine se uma das levadas mais características do Led Zeppelin, em que os agudos de Robert Plant se destacam, fossem trocados por gritos e gemidos de uma voz negra feminina. Também pense que com toda a pauleira do The Who, seus integrantes mudassem os malabarismos com o microfone de Roger Daltrey por uma negra sedutora que encarasse seu microfone como se fosse um falo pronto para ser degustado, e, ao mesmo tempo, troque as danças aeróbicas do vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, por um belo par de pernas de uma negra sensual, vestida em uma pequena saia brilhante, fazendo uma dança frenética e orgástica? Imaginou?!?!
Todos os grandes vocalistas do rock citados nunca aprontaram suas orgias musicais sozinhos, tendo ao seu lado performáticos guitarristas que não deixavam o clima esfriar. Essa ‘Musa Black’ também não seria diferente! E, ainda envaidecida de prazer, traria consigo um marido ciumento, guitarrista subestimado e hoje esquecido, para mandar ver em uma segunda viagem solo, expelindo todo seu estupor sexual, como um voyeur ensandecido pelo balanço de sua mulher.
Agora junte as características descritas para essa garota e acrescente o sabor Funk & Soul desenvolvido pelo maridão, e você terá todo o desempenho de Tina Turner em Acid Queen. Lançado em 1975, o álbum é um apetitoso exemplo do encontro de Tina Turner com cadenciadas versões de músicas das bandas citadas no primeiro parágrafo. Das nove faixas, cinco são covers – ‘Whole Lotta Love‘, ‘Let’s Spend The Night Together‘, ‘Under My Tumb‘, ‘I Can See For Miles‘ e ‘Acid Queen’, essa última impulsionaria a carreira da cantora para a interpretação, colocando-a como a Rainha do Ácido, no filme Tommy, da banda The Who – e as outras quatro são composições do parceiro Ike Turner. Especialista em fazer versões dançantes de clássicos roqueiros para a Turner fêmea interpretá-los com toda a libido – Prody Mary é o caso mais famoso – o Turner macho arrasa por todas as faixas, com guitarras cheias de swing. Sua participação no álbum talvez tenha, à época, amenizado seu complexo de inferioridade perante o sucesso de sua mulher, fazendo com que não o abalasse mais uma vez, resultando em pancadaria para cima de sua amada.
O contato direto com os Rolling Stones é bem perceptível nas composições do Turner macho: ‘Bootsy Whitelaw‘ e ‘Pick Me Tonight‘, onde ele produz uma boa mistura rítmica do seu Soul-Funk, com as levadas de guitarra tipicamente stoneanas. Já Tina é puro prazer: ela suga toda energia das batidas, goza de seu poder vocal e imprime todo seu apetite sexual em interpretações excitantes, satisfazendo o ouvinte e deixando um gostinho de quero mais.
Advertência: cuidado para não viciar.
SOLTA A CACHORRADA
10 Motivos para a Cachorro Grande lançar um registro de show em DVD
Plus+: Cada motivo tem um link para um vídeo de alguma apresentação da banda. É só clicar com o mouse em cima de cada texto que abrirá uma nova janela com o vídeo no Youtube
02 Um show da Cachorro Grande é uma catarse instânea do início ao fim.
04 Tanto banda, quanto o público, merecem um registro decente de seus shows.
05 A banda já lançou quatro álbuns, e isso significa que muita música já ficará de fora.
06 Porque eles sempre protagonizam algum cover com potência máxima, que geralmente pode ser Beatles, The Who, ou a nova paixão dos integrantes: Neil Young.
09 Os próprios integrantes consideram os shows atuais como os melhores que eles já fizeram até aqui.
+ 1 porque os clipes deles são bem legais e dariam um bom caldo nos extras.
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TRIVIALIDADES MUSICAIS DA GRANDE IMPRENSA
Mas para não deixar os Stones sem a merecida palhinha, veja o que foi publicado de Shine a Light
PRIMEIRA IMPRESSÕES (Segundas Intenções) I
Black Crowes – Warpaint é o nome do novo álbum – depois de sete anos de espera por um trabalho completo de canções novas, o último foi Lions (2001) – e sai pelo selo criado pela banda, Silver Arrow (nome típicamente Neil Young), o que pode soar como um bom futuro de novos registros, mas com eles nunca se sabe. No site repaginado dá para ouvir a nova Goodbye Daughters of Revolution. Ótimo ‘retorno’. Parece voltar com o espírito de 3 Snakes and 1 Charm, disco de (1996). Com os novos integrantes – mais uma vez!!! – Luther Dickinson na guitarra, vindo do North Mississippi Allstars (que põe no mercado este mês Hernando); e Adam Mcdougall, que eu desconheço, nas teclas, os irmãos Robinson provavelmente terão um dos melhores registros de 2008, o folk clássico é a influência da vez. O álbum sairá em 4 de Março e foi produzido pelo parceiro da carreira solo de Chris Robinson, Paul Stacey, que havia substituído Marc Ford, quando ele caiu fora da revoada da turne Join Hands. Saldo: Extremamente Positivo.
Lennny Kravitz – Com o sugestivo título de It Is Time for a Love Revolution, o multi-instrumentista e praticamente ‘one man record’, pois grava quase que sozinho seus álbuns, largou mão da frescura de chapinha no cabelo e intervenções eletrônicas para se dedicar ao que ele faz de melhor: rock básico com aqueles timbres setentistas e baladas de bom gosto e solos inspirados. Bring It On é a primeira pauleira, e I’ll Be Waiting é a balada que tocará insessantemente nas rádios e na MTV, mas é consistente como Again e tem todas as características de uma balada a la Sr. Kravitz, já está no Youtube. É tempo de voltar a ouvir Lenny Kravitz. Álbum prometido para 05 de Fevereiro. Saldo: por ter ouvido apenas duas canções, e as duas serem excelentes, é positivo. É esperar, pouco, para concretizar a profecia, ou a prece…
Gasoline é a típica Sheryl dos seus antigos álbuns, boa candidata para uma das melhores do álbum. Motivation motiva, mas não decola. Out Of Our Heads é estranhamente deliciosa, ou um momento de fraqueza minha. Drunk with the Thought of You, bela e pronto. Make It Go Away me remeteu ao clima soturno de Riverwide. Love Is All There Is é mais uma para tocar naquelas FM’s insossas, ou para ter um clipe naqueles canais de música country pop americanos, fuja. Diamond Ring, hum… já conheço uma música com esse nome e não troco ela por outra. Peace Be Upon Us, passou e eu não percebi. Lullaby For Wyatt, Sheryl + violão dedilhado + (piano + cello) = Lullaby’s. God Bless This Mess, isso é uma boa canção folk para a Sheryl Crow. Shine Over Babylon é uma daquelas que ela já fez. Saldo: não é positivo, não é negativo, mas é preciso melhorar, ou ouvir mais, para descartar ou selecionar o que pode ir para o seu mp3 player. Leve em consideração os trabalhos anteriores e ela ser uma artista engajada mas não chata. Chega em formato físico no segundo dia de fevereiro.SEGUINDO O INSTINTO
Ben Harper and the Innocent Criminals – Lifeline – 2007A oitava produção de Ben Harper, Lifeline, contém o ‘amálgama de banda’ que não foi explorado em seu disco anterior, duplo e, até um tanto conceitual, Both Sides of the Gun, de 2006.
Extremamente trabalhado nas passagens de som durante a turnê de Both Sides’, as canções foram bem estruturadas para, em apenas uma semana de novembro de 2006, serem gravadas todas em processo analógico, em um estúdio em Paris, algo que Harper almejava há tempos.
As canções de Lifeline não trazem as viagens de Weissenborn características de Harper, a não ser pela penúltima, a instrumental e acústica “Paris Sunrise #7″, feita inteiramente no instrumento. Lifeline agrega as letras do músico californiano com o trabalho instrumental de todos os integrantes da Innocent Criminals – atualmente formada por Juan Nelson (baixo), Oliver Charles (bateria), Leon Mobiley (percussão), Jason Yates (teclados) e o novo integrante, Michael Ward, ex-Wallflowers.
Compare as capas de Both Sides of the Gun e Lifeline. No trabalho anterior, Harper aparece sozinho de braços cruzados na capa, enquanto em Lifeline, o músico está na mesma posição, mas rodeado de seus escudeiros, demonstrando que é um trabalho de banda.
Há muito soul em todas suas vertentes pelas faixas de Lifeline. Mas, há também um pouco de black tipicamente Motown, country e até o Ben Harper do início de carreira. “Fool for a Lonesome Train” lembra os Stones country do início da década de 70, quando Gram Parsons era uma grande influência para Keith Richards. “Heart of Matters” e “Say Will You” estão bem próximas do trabalho realizado em There Will Be A Light (2004 – e resenhado aqui anteriormente), parceria com os músicos do Blind Boys of Alabama. Inclusive, se colocarmos de lado o trabalho anterior de Harper, Lifeline parece uma seqüência lógica para o som desenvolvido em There Will Be A Light.
CAINDO NO BURACO
O prodígio do Folk Rock está de volta. E mais uma vez, nos derradeiros tempos de 2007, Ryan Adams solta mais um punhado canções – ou poderíamos dizer punhadinho, já que se trata de um EP (sim caro leitor, EP, formato de disco com quantidade menor de músicas. Dizem uns que este não deve passar de sete registros, mas antigamente, na época do vinil, sete era um número que acabava cobrindo os dois lados do LP, e quem sabe talvez por isso, os discos costumavam trazer apenas ótimas canções, e não um punhado de música pífia ou inócua) – sendo que, uma é uma cover de uma extinta banda dos anos 90 – quem disse que eles não seriam lembrados no futuro hein… – o Alice In Chains, com uma versão correta de Down In A Hole, mas não surpreendente, para o que podemos concluir um hit, ou clássico, da banda do já defunto Laney Stanley – que, segundo nosso blog-amigo-informativo-cultural Credencial Tosca, ganhará as páginas de uma biografia num futuro próximo (olha o som dos anos 90 novamente em foco, agora em mais um livro).
Ryan ainda faz uma autofelação ao coverizar três de suas canções: This Is It, do álbum Rock’n'Roll (2003), que perdeu o punch da original; I’m A Stranger, numa versão mais calma e com cara de ensaio para acústico, do irretocável Cold Roses (2005); e uma versão para Dear John, resultado da parceria com Norah Jones, que saiu no country Jacksonville City Nights (2005). Retirando essas versões, podemos constatar que Adams poderia ter terminado o ano sem esse Follow The Lights, pois as quatro novas composições, não adicionam em nada ao belo e prolífico catálogo do ex-Whiskeytown. Elas poderiam caber perfeitamente em vários dos outros álbuns, principalmente, nos dois últimos (29 e Easy Tiger – resenhado aqui anteriormente), pois espaço nesses vinis digitais não faltam.
Mas, como este blog sabe da capacidade de Adams, ficamos aqui esperando o(s) registro(s) de 2008.
UMA SURPRESA IRRESISTÍVEL
WILCO – Sky Blue Sky (2007)
“Eu devo ficar satisfeito, eu não morri”. Essa é parte da letra de Sky Blue Sky, música que também acabou batizando o sexto álbum de estúdio do Wilco, lançado neste ano. A frase parece ironizar a capacidade de artistas, como Sir Mick Jagger, de sentirem-se insatisfeitos desde a década de 60, e ainda buscarem mais, mesmo estando com mais de 60. Mas um disco da banda de Jeff Tweddy, o homem cérebro do Wilco, não serve apenas para isso. A ainda sensação independente da banda os coloca numa espécie de mainstream paralelo e indiferente às paradas americanas que tentam ditar o que é cool.
Embora alguns críticos retalharam o álbum e, consequentemente, Tweddy, Sky Blue Sky caminha sereno entre os melhores trabalhos da banda, e um dos melhores do ano. Agora como um sexteto, com a adição do guitarrista Nels Cline e do multi-instrumentista Pat Sansone, o Wilco se fechou em estúdio e trabalhou sentimentos de maneira racional e sóbria nas letras, colocando a parte passional em belos arranjos que foram estruturados detalhadamente por todo o álbum. Sem experimentalismos desta vez, a sensação é de que as letras foram compostas depois de cada arranjo pronto, pois, as guitarras são o foco principal deste céu monocromático, mas sempre belo, de Sky Blue Sky. Mas essa não é uma sensação óbvia. Apesar de alguns solos tipicamente Neil Young roqueiro, a maioria das canções lembram um McCartney melodioso, ou mesmo o soft rock setentista, mesmo porque as foram gravadas ao vivo no estúdio, recebendo sobreposições posteriormente, dá pra sentir os instrumentos vazando pelos microfones alheios. As guitarras estão expostas sem distorções ofuscantes, experimentalismos com microfonias, ou harmonias monocórdias.
O álbum parece um Neil Young meets Beatles, com ênfase nas composições de McCartney. Embora seja nítida a apreciação do velhinho canadense pelo parceiro morto de McCartney, é no Wilco que a junção Young-McCartney soa frutífera. A primeira porção deste amálgama aparece em You Are My Face, outro exemplo ótimo fica por conta de Hate It Here. O lado apenas alt-country de SummerTeeth (1999), é revisto em What Light e Please Be Pacient With Me. Enquanto Walken e On and On and On soam exatamente como uma composição do Beatle Paul, muito por conta do piano de Mikael Jorgensen. É essa aparentemente bagunça de country, folk e soft rock misturado e adoçado com uma psicodélica de dedicação beatle para composições é o grande atrativo em Sky Blue Sky.
Este álbum entrou na lista dos melhores de 2007. Confira o post!!!
COLETÂNEA DE INÉDITAS
RYAN ADAMS – Easy Tiger (2007)
Como um filho pródigo do country-rock, Adams ataca novamente com mais uma bolachinha, sendo um dos artistas que mais deve sofrer da síndrome da composição prolífica – Jack White compete com ele ponto a ponto – emendando um trabalho atrás de outro, entre uma turnê e outra. Férias não devem constar no vocabulário do caipira roqueiro.
Com faixas curtas, Easy Tiger pode figurar como uma coletânea de inéditas, pois o material deste disco parece conter um pouco de cada álbum que o músico vem produzindo desde o início desta década. Pearls on a String e Tears of Gold parecem terem saído do country Jacksonville City Nights (2005), enquanto Halloween Head e Two Hands poderiam figurar o outro extremo de Adams, como em Rock ‘n’ Roll (2003), cujo título já define o conteúdo. Dos soturnos Love is Hell (2004) e 29 (2006), as faixas Oh My God, Whatever, Ect e I Taught Myself How To Grow Old, que fecha o álbum, seriam as bolas da vez. Do primeiro álbum, o folk Heartbreaker (2000), um forte exemplo seria a bela Off Broadway. Já The Sun Also Sets e Goodnight Rose cairiam bem em Cold Roses (2005), que garantiria a taça de ouro de melhor álbum, se Adams não tivesse feito Gold (2001). A dobradinha Two e Everybody Knows poderiam ser lados B deixados fora do badalado álbum.
Provavelmente, Easy Tiger não vá figurar entre as mais celebres produções de Adams. O lançamento de 2007 se equilibra com o mediano Demolition (2002). Embora para iniciados, é tiro certeiro de agrado. Para quem não conhece, ou não tem nenhum álbum do americano, Easy Tiger é um bom motivo para começar a ouvir sem precisar mastigar álbuns mais complexos da carreira do filho de Jacksonville.
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UM NOVO LATIDO
CHACHORRO GRANDE – Todos os Tempos – 2007
Esperado há tempos, prometido com firmeza Rock ‘n’ Roll, o quarto latido dos gaúchos da Cachorro Grande está no mercado, Todos os Tempos, e está na internet para deleite da cachorrada fã de um bom rock ‘n’ roll feito com a velha química do ao vivo em estúdio.
As influências sixties não mudaram nada – Beatles, Stones, Who, Neil Young e outras figurinhas carimbadas – mas ganharam força de outras referências que também se inspiraram nos medalhões do rock clássico para reinar no início da década de 90 – Stone Roses, Primal Scream e Verve podem exemplificar bem.
Para conseguir alimentar a cachorrada de plantão, o site www.todosostempos.com.br disponibiliza para o lunático fã da banda mais rock ‘n’ roll do Brasil, ouvir antes de se decidir pelo disquinho convencional, ou seja, o baixado pela pista livre da internet…(rs) ou se prefere a neo-tradição de comprar o CD. Seja qual for a ordem do bolso, Todos os Tempos garante que as próximas horas de audição serão muito boas!!!
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PÉROLAS ENTRE PORCOS
Não se pode negar. Por mais que seja evidente que há influência do rock clássico feito no fim de 60 e início de 70, no primeiro disco homônimo do power-trio Wolfmohter, a sensação déjà vu é inevitável, e não que seja algo ruim ou confuso, como é costume acontecer com este tipo de empreitada, mas é admirável. O prazer é nítido ao ouvir músicas extremamente timbradas e estruturadas aos moldes da vanguarda roqueira daquela época, e diferenciar de onde cada riff de guitarra, cada levada de bateria, ou mesmo o ataque do baixo tem origem. O Wolfmother conseguiu lançar em 2005 o álbum que a reunião do Black Sabbath original não foi capaz de reproduzir na segunda metade da década de 90. O hit Woman já pode ser eleita a Paranoid dos anos 2000.
E já que negar essas influências é algo impossível, dar nomes aos bois é mais do que óbvio e até necessário. Dimension abre a biscoito do trio australiano com riffs sabbathicos cortantes, mas a levada é puramente Grand Funk Railroad. Power-trios como o próprio ‘GFR’, o Cream e o Blue Cheer ficam evidentes em Pyramid e em Tales From The Forest Of Gnomes. A influência do pré-punk do baixo de Chris Ross se mistura com a linha melódica de guitarra e teclado em Apple Tree, além de ter um solo esquizofrênico. Enquanto White Unicorn alterna momentos pacíficos com explosões de lembrar Sabbath Bloody Sabbath, deixando o final apoteótico bem ao estilo do Led Zeppelin. E é a banda inglesa que também é lembrada nos dedilhados e do órgão de Where Eagles Have Been, além de Vagabond que fecha as edições não australianas do álbum. O timbre do vocal gritado do novato Andrew Stockdale assemelham-se ao nem-tão-novato Jack White. Outras bandas mais novas, mas também ligadas ao som setentista, dão as caras numa influência-originalmente-plágiada-dos-originais. As levadas de Kyuss e Soundgarden são recordadas pelo baterista Myles Heskett em Colossal e Mind’s Eye respectivamente.
O Wolfmother soube utilizar sutilmente os clichês progressistas sem soar chato ou enfadonho. E o melhor exemplo disto está em Joker and The Thief se apropria de introdução progressiva com o velho órgão Hammond fazendo cama para um riff de guitarra espacial. Withcraft lembra o Rush – quando ainda não era chato – aliado as flautas piscodélicas do Jethro Tull.
Love Train é possivelmente a melhor faixa do disco por diferenciar-se das demais, com percussão a la Sympathy for the Devil e um groove dançante.
Não há problema algum em ser nitidamente parecido com suas influências, desde que o som seja tão bom quanto o original. E neste caminho o Wolfmother passa com louvor, sem cair no saudosismo macambúzio. Agora é só esperar pelo próximo pacote de biscoitos do trio que já está no forno.
PELAS PAREDES DO QUARTO
ROLLING STONES – Sticky Fingers – 1971
Tenho a sensação de que os acordes de Sticky Fingers, lançado em 1971, estão presos entre o cimento e os tijolos da parede do meu quarto, e que ao apertar do play eles começam a criar vida ressoando da parede fria para esquentar o meu quarto e as minhas veias.
Este disco marca uma nova fase na carreira dos Rolling Stones, sendo o primeiro álbum lançado pelo selo criado pelos membros da banda. Embora discos como Beggar’s Banquet (68) e Let it Bleed (69) já esboçassem a evolução criativa da banda, o que caracteriza o som dos hoje geriátricos roqueiros está presente por todo disco produzido “com afeto” por Jimmy Miller, como assegura na ficha técnica.
A capa criada por Andy Warhol, que viria originalmente com um zíper, já sugere o petardo sexy que é ouvir Brown Sugar abrindo os mais de 45 minutos deste deleite stoneano. A essência de rock básico nos riffs marcantes de Keith Richards se entrosa perfeitamente a batida certeira e elegante de Charlie Watts que se alia ao amadurecimento vocal de Mick Jagger para provocar libido extremo aos ouvidos.
Embora tenha substituído o guitarrista Brian Jones em 1969, Mick Taylor parece estar mais íntimo do resto da banda neste álbum, soltando inspiradíssimas melodias nos solos de Sway e Moonlight Mile, além do slide na releitura do clássico bluseiro You Gotta Move, características que o fizeram despontar nos Bluesbreakers de John Mayall antes de ser transformado em um Stone.
A presença de vários clássicos e participações de conhecidos músicos acrescentam o chantilly na bolacha stoneana. A balada Wild Horses e a elucidativa Sister Morphine, com participação de Ry Cooder na guitarra e Jack Nitzche no piano, além da contemplativa I Got the Blues, com um excelente solo de órgão do recém falecido Billy Preston. Bitch traz um groove viril fortalecido pelos metais de Bob Keyes e Jim Price, enquanto a porção caipira da banda aparece em Dead Flowers.
Além de ser imprescindível na estante de qualquer amante do rock and roll, Sticky Fingers seria o primeiro de uma série de registros que marcariam a melhor fase da ‘maior banda de rock do mundo’, como ficara conhecida a banda a partir do início da década de setenta.
Mais Stones? Veja o resultado da parceira deles com Martin Scorsese clicando aqui!!!
BEM-VINDO A COMPANHIA DE TOM PETTY
Tom Petty reaparece neste ano com mais um disco carregado de violões, em canções muitas vezes bucólicas e contemplativas, enquanto outras te fazem bater o pé ao seu ritmo.
Saving Grace abre Highway Companion dando uma amostra de como o blues pode ser modernizado sem perder sua essência. Os violões de Square One e Flirting With Time me passaram uma sensação de déjà vu, pois parecer terem saído do disco Wildflowers (1994). Tom Petty traz uma característica recorrente nas suas composições : refrões que grudam na cabeça e fazem até os mais timidos balbuciarem suas palavras. Esses refrões aparecem em Big Weekend, Night Driver, na já citada Flirting With Time e com o passar de várias audições você está cantando outros refrões sem perceber.
Down South é uma viagem de ônibus rumo as plantações de algodão do delta do Mississippi, os raios solares se degladiando com nuvens carregadas no céu, mas que parecem esperar o momento certo pra desaguar.
Roy Orbison, ex-parceiro de Traveling Wilburys, deve ter inspirado Petty em fazer Damage by Love. Enquanto Jack carrega uma levada climatizante, além de uma guitarra a la J.J. Cale. Outro companheiro de Wilburys, Jeff Lynne, aparece na produção do disco – que é co-creditada a Tom Petty e o inseparável Heartbreaker Mike Campbell – o que serve para abrilhantar o disco que leva apenas a assinatura de Petty. Mas a porção do tempero Heartbreakers começa ganhar maior destaque a partir de Turn This Car Around. O piano em This Old Town deixa sua marca, sendo uma das melhores faixas do álbum. O timbre da guitarra solo de Ankle Deep é surreal. Para fechar o disco, Petty registra The Golden Rose, que poderia muito bem ser uma faixa de The Last DJ, de 2001, e um dos melhores álbuns de Tom Petty and the Heartbreakers.
Highway Companion talvez por ser mais introspectivo não será um dos mais marcantes da carreira de Tom Petty, terá seus hits que serão figurantes em uma próxima coletânea, mas é muito mais radiofônico do que o é que considerado música boa para as rádios.
ENTRE O FOLK E O ROCK
Neil Young – Everybody Knows This Is Nowhere (1969)
Após lançar-se em carreira solo com seu primeiro álbum, o canadense Neil Young recrutou os músicos de uma banda chamada The Rockets para ensaiar e gravar em apenas duas semanas Evebody Knows This Is Nowhere, lançado em 1969, e garantir que esse registro entrasse para o grande mundo dos clássicos do rock. A química que rolou entre o guitarrista e os companheiros Billy Talbot (baixista), Ralph Molina (baterista) e Danny Whitten (guitarrista) foi de uma dose tão cavalar que, o nome da banda não poderia ser mais adequado: Crazy Horse.
Cinnamon Girl abre o disco dando amostras que a batida precisa do grupo seria a companheira perfeita para os delírios guitarrísticos de Young – sua marca registrada – e que reapareceriam ao longo do disco em Down by the River e Cowgirl in the Sand, que fecha o álbum num momento singular para todo o folk-rock da época. A voz cheia de angústia é paralelamente reconfortada pelo violino de Bobby Notkoff em Running Dry (Requiem For The Rockets), um contraponto com o resto do álbum que foi gravado praticamente ao vivo no estúdio. A música que dá título ao álbum e The Losing End (When You’re On), mostram que Young transpôs o som de sua antiga banda, a Buffalo Springfield, para sua nova empreitada. Round & Round (It Won’t Be Long) traz a participação da cantora Robin Lane, num dueto vocal com Neil, que parece desfocar da linha evolutiva do disco, mas ele mostra seu estilo inconfundível no violão e inspiração suficiente para não deixar a bola cair.
Produzido por David Briggs, o álbum permaneceu por quase cem semanas nas paradas americanas e é uma amostra do poder que o folk-rock exerceu na década de sessenta.













