Bola dentro, Bola Fora (ou Good Times, Bad Times)
O Led Zeppelin como era nunca mais será visto ao vivo. Em compensação, outras grandes bandas podem estar por aí, destilando o velho rock ‘n’ roll com a mesma carga de grandes lendas
O Discoteclando abre 2009 com um artigo-desabafo: infringindo a lei do fã, metendo o pau na maior banda de todos os tempos: Led Zeppelin, ou melhor, em parte de seus integrantes. Desde o show tributo a Ahmet Ertegun em dezembro de 2007 na arena londrina O2, que a banda reunida com o herdeiro Jason Bonham nas baquetas resulta em especulações, notas, comentários e um suspiro qualquer de um dos integrantes servem para ser notícia de jornal relatando sobre uma possível volta da banda. No momento a reportagem da BBC é que está gerando mais frenesi, devido ao fato da declaração partir do empresário de Jimmy Page, alegando que a banda esta em vias de sair em turnê, lançar um álbum de inéditas, e tudo isso sem Plant, que teve a decência de não concordar com a reunião, já que sua voz não alcança mais as notas necessárias que fizeram à fama do vocalista nos anos 70, estando mais para o clima etéreo da parceria com a cantora Allison Krauss. Além do óbvio: John Bonham está morto. Ou seja, o Led Zeppelin como era nunca mais será visto ao vivo. Nomes como o de Chris Cornell e Steven Tyler, que já são conhecido do grande público são lançados a esmo para desespero dos fãs mais incólumes.
A maneira encontrada através das especulações é de que Page, Jones e Jason estariam de olho em vocalistas e que isso não chamaria Led Zeppelin. Até aí tudo bem, não usando o sagrado nome e produzindo algo novo é digno. E, além do mais, eles já tem grana além do necessário, sendo uma reunião simplesmente para satisfação do ego. Vão se divertir e de quebra divertir uma galera que não pode ver o Zeppelin original em palco.
Em novembro de 2008, a banda completou 40 anos desde sua primeira reunião em um porão em Londres em que verificaram a química perfeita dos quatro. A partir disto, tudo virou história recontada inúmeras vezes de maneiras diversas, as certas e as erradas. A verdadeira pulga atrás da orelha para o Led Zeppelin fica para a não comemoração destes 40 anos. Em novembro, data oficial da formação da banda, nada rolou. Nem dezembro, data do lançamento do primeiro álbum na Inglaterra. Este mês marcaria o lançamento de Led Zeppelin I no resto do globo. Então, onde estão as tradicionais comemorações que geralmente embalam estas datas com produtos de consumo para os fãs mais fanáticos e para os novos iniciados que ainda não contemplam a plenitude de suas gravações?!!? O show da O2 foi gravado, mas até agora nenhuma linha sequer foi dada sobre seu lançamento.
Para que essa comemoração não passe em branco por aqui no Discoteclando, segue a baixo um vídeo da nossa aposta real de uma banda já tem conteúdo para dar – e dará – o que falar em 2009, tocando a música que abriu o show de reunião do Led Zeppelin.
Nos moldes do Raconteurs, a Relentless 7 – formada por Ben Harper (guitarra, slide e vocais), Jason Mozersky (guitarra), Jesse Ingalls (baixo e teclas) e Jordan Richardson (bateria) – promete ser um dos melhores lançamentos do ano, se eles lançarem algo, claro. No site oficial, além de ‘Good Times Bad Times’ do Led, há ‘Purple Rain’ do Prince, numa versão que humilha a original, e a música que gerou essa reunião, ‘Serve Your Soul’, uma excêntrica pancada no formato zeppeliniano que apareceu primeiramente no álbum Both Sides Of The Gun, do Ben Harper já com a formação do Relentless 7. Já no YouTube dá para conferir a pegada da banda ao vivo. Tem até Under Pressure, para quem não está com tesão de ver o Queen + Paul Rodgers tocando-a, mas quer apreciar um velho material revigorado em novas mãos. Obviamente influenciados pelo Zeppelin, os petardos originais deles não ficam atrás de grandes composições dos dinossauros do rock. Isto sim é digno de se ganhar as manchetes de jornais.
Mais do mesmo (e isso é tão bom)!!!
AC-DC retorna do estúdio com álbum cheio de vitalidade e garante os primeiros lugares de vendas em vários países, mesmo com músicas vazadas na internet
Se tratando de AC/DC, não há como negar. O álbum Black Ice é o que se esperaria depois de um hiato de oito anos sem lançar nada de estúdio. As novas músicas são feitas da mesma estrutura de composição que tornaram a banda um mártir do rock clássico: guitarras afiadas, baixo e bateria com a precisão de uma máquina, fortes e rudes timbres setentistas, solos potentes, letras do mundo do rock, voz gritada e refrões para cantar em coro. Único fator de ineditismo fica com ‘Stormy May Day‘, em que a utilização de slides se sobressai para fazer a melhor canção do álbum, enquanto outras composições remetem à potência de Powerage, de 1978, e For Those About To Rock, de 1981. Ou seja, a corrente continua a toda carga. E mesmo que a banda esteja reproduzindo os mesmos volts, tudo é muito bem arquitetado para garantir a satisfação, tanto para quem toca, quanto de quem ouve. Os fiéis fãs agradecerão.
Texto também publicado no site Engenho
UMA IDÉIA SINGELA SE PERPETUA NO FUTURO
Delaney & Bonnie and Friends – Motel Shot – 1971
Delaney e Bonnie Bramlett formavam um casal que produzia um rock cheio de soul. Depois de alguns discos que não tiveram reconhecimento mundial, mas que são compostos de uma qualidade musical peculiar e criativa, além de serem artistas com grande influência entre os músicos. Depois de alguns álbuns, e várias turnês sold out – incluindo uma com Eric Clapton na guitarra – resolveram convidar alguns amigos para participar de uma gravação em que os instrumentos acústicos seriam predominantes nas músicas. Escolhendo algumas canções tradicionais e outras tantas inéditas, eles fizeram uma pequena festa com esse círculo de amizades misturando gospel, country, blues, folk, and o antigo R&B e lançaram isso em 1971. Alguma lembrança aos acústicos que apareceram no início dos anos 90 e viraram marca e febre comercial na indústria fonográfica?
Muito antes da explosão dos acústicos, via MTV ou outras, o álbum Motel Shot de Delaney & Bonnie and Friends, é um marco para a criação de acústicos, onde a experimentação musical ganha novas cores, gente famosa comparece, não para ser mais um atrativo de vendagem, mas para contribuir com amizade verdadeira e se divertir fazendo música, garantindo entusiasmadas jam’s em que o sentimento metafísico se faz presente.
Os amigos em Motel Shot são figuras clássicas do rock sixties, e colocaram suas especialidades em favor da música produzida neste álbum. Leon Russel trouxe sua infame personalidade musical na guitarra e piano, mas também trouxe a força e a rouquidão da voz de Joe Cocker, que se destaca em Talkin’ About Jesus. Enquanto Gram Parsons e Clarence White contribuíram com a energia country dos Flying Burrito Brothers e Byrds. O saxofone de Bob Keys que é marca de sopros nos Stones, já fazia a festa pelas turnês dos Bramletts. Jim Keltner é responsável pelas batidas orgânicas e detalhistas, enquanto Dave Manson explorou os arranjos de Delaney junto do slide sulista de Duane Allman. O piano de Bobby Whitlock, e o baixo pulsante de Carl Radle sempre foram créditos desde o primeiro álbum do casal Delaney & Bonnie.
O clima de festa e louvação musical é do início ao fim. Lonesome And A Long Way From Home fecha esse ‘acústico’ numa versão mais intimista que a executada pela banda de Bramlett, além de ser arranjada e produzida pelo próprio, para o primeiro solo do amigo Clapton. Will The Circle Be Unbroken celebra a amizade musical desta reunião, com uma excelente interpretação vocal de Bonnie. A versão de Come On In My Kitchen, do lendário bluseiro Robert Johnson, ganha o piano e percussão como condutores, enquanto na seqüência, Don’t Deceive Me trabalha a vocalização da canção como uma reverência as raízes do blues.
Motel Shot é uma amostra de que singelas idéias, mas originais, podem ser mais significantes do que se esperaria. Pois, quem diria que, este mesmo esquema de gravação ganharia as paradas de sucesso, mais de vinte anos depois?!?!
PRA QUEM NÃO VIU SHINE A LIGHT, E PRA QUEM VIU TAMBÉM…
Esqueça os comentários que você ouviu por aí, os que você leu em tantas outras publicações, ou mesmo aquilo que você espera de um show dos Rolling Stones. O registro no Beacon Theater em 2006 por Martin Scorsese sobre a longevidade dos Rolling Stones não é apenas isso, é um documento distinto dos demais registros de shows da banda.
Então aqui vai alguns detalhes que só a visão de Scorsese teve a peculiaridade de encarar, e outros que a gente perceber só por ser Rock and Roll:
- Scorsese soube filmar tudo aquilo que não foi filmado nos muitos registros já existentes. Suas experiências anteriores, na área e mesmo nos seus filmes, deram a peculiar visão para filmar a banda mais imprevisível do planeta.
- a cumplicidade entre todos da banda é realmente um resultado de anos de convivência, e Mick Jagger e Keith Richards já superaram as divergências do passado. A intimidade dos dois ao dividir um microfone é um desses pontos que são emblemáticos na película.
- Ronnie Wood é o membro mais Rolling Stones entre todos os outros integrantes que já passaram pela banda. E a costura de guitarras entre ele e Richards é providencial, como o velho pirata Sparrow diz nas entrevistas que Scorsese resgatou para o show ter a acunha de documentário: “Somos péssimos sozinhos, mas juntos valemos por dez”.
- Keith Richards: a cusparada de cigarro; a indiferença para quem é Cristina Aguilera; a reverência transposta em uma guitarra dada, em cima do palco, para Buddy Guy; o fato de estar feliz simplesmente de estar aqui; a alegria de tocar guitarra, tanto para ele quanto para o público, e de qualquer outra coisa estampada em sua face; o desapego sobre sua própria fama.
- o fato de Charlie Watts ser um dos melhores bateristas de rock sem precisar fazer nenhum solo, e não pintar os cabelos brancos.
- que o convidado Jack White parecia uma criança numa loja de brinquedos, embasbacado com quem dividia o palco.
- que os extras do futuro DVD devem ser do caraleo. Acima da importância de ver esse registro nos cinemas, ter isso em sua discoteca é inevitável e obrigatório.
- Embora a cada close em um determinado músico e seu instrumento, o som deste salta nas caixas de som dos cinemas, vindo para o primeiro plano e mostrando detalhes que geralmente ficam mixados balanceadamente em registros para consumo em massa, a trilha sonora de Shine A Light – que você pode ouvir no trilhasmp3 – é o melhor registro de um show dos Stones desde Get Yer Ya-Ya’s Out (1970), que já é um clássico de gravações ao vivo.
- e quem não gosta de Rolling Stones e de Martin Scorsese e não passar a gostar depois de ver esse registro, eu insisto: vai ouvir easy listing numa sala de dentista qualquer para depois arrancar todos os dentes sem anestesia, afinal, não aparecerá no mundo ser humano mais insensível. E, para quem já gosta, já deve ter percebido tudo isso aqui.
Mais Stones??? Então clique aqui!!!
SEXO SONORO
Tina Turner – Acid Queen – 1975
Imagine se uma das levadas mais características do Led Zeppelin, em que os agudos de Robert Plant se destacam, fossem trocados por gritos e gemidos de uma voz negra feminina. Também pense que com toda a pauleira do The Who, seus integrantes mudassem os malabarismos com o microfone de Roger Daltrey por uma negra sedutora que encarasse seu microfone como se fosse um falo pronto para ser degustado, e, ao mesmo tempo, troque as danças aeróbicas do vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger, por um belo par de pernas de uma negra sensual, vestida em uma pequena saia brilhante, fazendo uma dança frenética e orgástica? Imaginou?!?!
Todos os grandes vocalistas do rock citados nunca aprontaram suas orgias musicais sozinhos, tendo ao seu lado performáticos guitarristas que não deixavam o clima esfriar. Essa ‘Musa Black’ também não seria diferente! E, ainda envaidecida de prazer, traria consigo um marido ciumento, guitarrista subestimado e hoje esquecido, para mandar ver em uma segunda viagem solo, expelindo todo seu estupor sexual, como um voyeur ensandecido pelo balanço de sua mulher.
Agora junte as características descritas para essa garota e acrescente o sabor Funk & Soul desenvolvido pelo maridão, e você terá todo o desempenho de Tina Turner em Acid Queen. Lançado em 1975, o álbum é um apetitoso exemplo do encontro de Tina Turner com cadenciadas versões de músicas das bandas citadas no primeiro parágrafo. Das nove faixas, cinco são covers – ‘Whole Lotta Love‘, ‘Let’s Spend The Night Together‘, ‘Under My Tumb‘, ‘I Can See For Miles‘ e ‘Acid Queen’, essa última impulsionaria a carreira da cantora para a interpretação, colocando-a como a Rainha do Ácido, no filme Tommy, da banda The Who – e as outras quatro são composições do parceiro Ike Turner. Especialista em fazer versões dançantes de clássicos roqueiros para a Turner fêmea interpretá-los com toda a libido – Prody Mary é o caso mais famoso – o Turner macho arrasa por todas as faixas, com guitarras cheias de swing. Sua participação no álbum talvez tenha, à época, amenizado seu complexo de inferioridade perante o sucesso de sua mulher, fazendo com que não o abalasse mais uma vez, resultando em pancadaria para cima de sua amada.
O contato direto com os Rolling Stones é bem perceptível nas composições do Turner macho: ‘Bootsy Whitelaw‘ e ‘Pick Me Tonight‘, onde ele produz uma boa mistura rítmica do seu Soul-Funk, com as levadas de guitarra tipicamente stoneanas. Já Tina é puro prazer: ela suga toda energia das batidas, goza de seu poder vocal e imprime todo seu apetite sexual em interpretações excitantes, satisfazendo o ouvinte e deixando um gostinho de quero mais.
Advertência: cuidado para não viciar.
A NOVA PINTURA DOS CORVOS
Após sete anos sem lançar material inédito, a Black Crowes pinta a cara e faz a (r)evolução musical do seu rock retrô. Assim como os Rolling Stones fizeram em 1970, ao criar o seu próprio selo para lançar a melhor safra de sua duradoura carreira, ou o Led Zeppelin, que também fez o mesmo, criando o selo Swan Song e colocando o álbum duplo Physical Graffiti na praça em 1975, os Crowes criaram o selo Silver Arrow, depois de 18 anos de estrada e apenas 6 álbuns de estúdio. Warpaint é um complexo de dez inéditas e mais uma interpretação pesada do blues God’s Got It, clássico do Reverendo Charlie Jackson, que remete ao mesmo poder de Back of My Hand, o blues raiz que os Stones compuseram para seu último álbum, A Bigger Bang, de 2005.
Warpaint traz também novos corvos para a batalha: além da produção de Paul Stacey, que havia substituído o guitarrista Marc Ford na turnê All Join Hands, mas que não se alistou no front de batalha para a nova turnê, temos o guitarrista Luther Dickinson, oriundo do North Mississippi Allstars, mais o tecladista Adam MacDougall.
Cheio de blues, folk e psicodelia, o álbum gravado em três semanas em Nova Iorque, tem personalidade forte, consistente e se distingue bem dos trabalhos anteriores, embora algumas canções possam se aproximar das viagens e do clima de 3 Snakes and 1 Charm, lançado 1996. São perceptíveis também as características que fizeram da banda uma referência concreta para o rock and roll feito nos anos 60 e 70, além da originalidade e, ao mesmo tempo, reverência que possam colocá-los ao lado dos grandes artistas do rock clássico. O álbum foi gravado ao vivo em julho do ano passado, com o mínimo de takes possíveis, não traz nenhuma canção que fora composta anteriormente, e evidencia a progressão musical natural da discografia da banda de Atlanta, principalmente, para quem a acompanha desde seu início, isso fica mais perceptível. O álbum não é necessariamente conceitual, mas as letras remetem aos valores da revolução contracultural que foi deixada para trás por aqueles que a protagonizaram, e seus filhos que não a seguiram.
Goodbye Daughters of Revolution é a flechada inicial, lançada em single no final de Janeiro e abrindo perfeitamente Warpaint. Embora eles estejam dando adeus os filhos da revolução, dão boas vindas aos órfãos da geração hippie com um som tipicamente Black Crowes, ou seja, tipicamente rock and roll clássico, e mantendo a chama viva.
Walk Believer Walk é outra com um peso preciso, calcada no blues, e como definiu Chris Robinson “cheia de veneno para incrédulos”.
Oh Josephine é soul, gospel, country e psicodelia misturados, batidos e temperados de maneira original para uma balada que Chris considera a melhor canção que ele Rich compuseram.
Evergreen tem o mesmo sabor das músicas do álbum solo de Rich Robison, Paper (2004), um solo excêntrico e arrepiante de Luther Dickinson, e foi gravada em só take.
Wee Who See The Deep, é pesada, funk e louca!!! A guitarra slide duela com os maneirismos vocais de Robinson. Jimmy Page e Robert Plant fizeram escola.
Locust Street traz os raios solares da Califórnia para o álbum, balada de beleza singela, com violões e mandolin contrapondo ao clima pesado da letra, em que Chris Robinson tem uma visão Bob Dylan de seu país.
Movin’ Down The Line foi a primeira a ser gravada nas sessões do álbum. Traz várias mudanças rítmicas e climáticas, ‘mas está tudo certo, irmãs e irmãos’. Chris está arrebentando na gaita e um primor nos vocais.
Wounded Bird é uma das melhores faixas do álbum, rock direto, refrão viajante, contagiante e básico. Apenas libere sua mente e viaje.
There’s Gold In Them Hills é outra balada em que Chris Robinson avalia a vida de artista, sua beleza artística e sua prostituição mercadológica ao efeito do tempo de sua própria carreira. O trabalho do novo tecladista ganha destaque nessa faixa.
TRIVIALIDADES MUSICAIS DA GRANDE IMPRENSA
Mas para não deixar os Stones sem a merecida palhinha, veja o que foi publicado de Shine a Light
A VIDA É COMPLICADA
ALLMAN BROTHERS BAND
American University 12/13/70 (2002)
É complicado. Complicado porque a cada audição de American University 12/13/70, eu me pergunto por que uma banda que lançou um dos discos ao vivo mais legais da história – a saber, At Fillmore East – se prontificaria a cometer a heresia de lançar, trinta e dois anos depois, um ao vivo da mesma época? Poderia afirmar logo de cara que é mais um caça-níquel pronto para arrebatar o bolso dos corações mais fanáticos? Não quando um disco poderia vir da Allman Brothers Band com Duane Allman, um dos guitarristas mais bacanas do Southern Rock, já justificando a aquisição imediata. Principalmente porque Duanne morreu em um acidente de moto, em outubro de 1971.
Mas é complicado. As músicas do Fillmore foram distribuídas em vários lançamentos durante toda a carreira
da banda. A versão original ganhou automaticamente o emblemático rótulo de um dos melhores ao vivo de todos os tempos, contendo apenas seis faixas. Em fevereiro de 1972, sairia o misto de estúdio e ao vivo, Eat A Peach, com mais duas faixas dos shows no Fillmore. Em Duanne Allman Anthology, volumes I (1972) e II (1974), Don’t Keep Me Wonderin’ e Midnight Rider apareceriam retiradas do palco mais famosodos anos 60, mas até então eram inéditas, bem como Drunken Hearted Boy, que apareceria em 1989, na suntuosa caixa Dreams. Quando lançaram Fillmore Concerts, contendo quase que a totalidade das faixas espalhadas pelos lançamentos anteriores, o cheiro do bolso sendo lesado foi inevitável. Mas, para os mais entusiastas, em 2003 chega às lojas At Fillmore East (Deluxe Edition), contendo todas as faixas já apreciadas nos lançamentos anteriores. Então, você se perguntaria qual a finalidade de mais um lançamento? E ela se explicaria numa embalagem para deixar babar qualquer colecionador de CD’s. E depois de tudo isso, você se perguntaria, pra que um disco ao vivo lançado tantos anos depois.
Duanne também é o guitarrista das gravações de At Fillmore East, que, juntamente com Dickey Betts, formavam um enlace perfeito para bases e solos impecáveis. Durante o passar dos anos, a Allman Brothers continuou na ativa, mesmo depois da morte de Duanne, tendo vários guitarristas no seu front, mas nunca com um line-up tão magnânimo quanto aquela época. Isso explicaria bem o lançamento.
Mas ainda é complicado. Com um encarte simples, nenhuma das músicas apresentadas no show da American University são inéditas. A qualidade da gravação é inferior – o trabalho de remixagem e remasterização da Deluxe Edition é exemplar – e nenhuma delas se sobrepõe as versões retiradas dos shows do Fillmore, não acrescentando em nada as inspiradas versões apresentadas no show do Fillmore. A culpa pode até não ser da banda, que autorizou o lançamento, pensando nos fãs mais ardorosos. Ainda mais hoje em dia, em que todo mundo está cansado de saber que banda ganha dinheiro com show e não com vendagem de disco, ainda mais ao vivo. E, um registro, oficial ou não, de um show interessaria, teoricamente, para os que estavam na platéia e queiram guardar como lembrança.
É Complicado. Complicado com “C” maiúsculo porque este álbum chegou as minhas mãos através do meu melhor amigo, que me emprestou o artefato com todo o entusiasmo. COMPLICADO.
Assista o vídeo de In Memory of Elizabeth Reed no Fillmore!!!
VIAGEM NA MADRUGADA
RORY GALLAGHER – Live at Montreux (1975, 77, 79, 85, 94)
2006 – Brasil, sexta-feira de uma noite quente de verão (aqui parece ser sempre verão, mesmo que seja outra estação). Após um dia cheio exaustivo e permeado de compromissos, que fora formatado como num complô de acontecimentos que não me permitiram galgar os passos ao aparelho de dvd para assistir minha última aquisição. O produto ganharia só os raios do laser por volta da 1h00 da manhã quando, já de volta a minha residência e, depois de meus emails já estarem verificados, os trabalhos pré-organizados com a agenda de sábado pré-estabelecida, pude a duras pernas e já sonolento, ligar o aparelho de dvd e me posicionar horizontalmente na cama para iniciar ao meu esperado sono, depois de dar uma passada superficial pelo conteúdo do produto, captando alguns excertos…
1975 – Suíça. Há 31 anos atrás, as margens do lago Genebra e com as montanhas cobertas por neve, que Rory Gallagher era registrado em vídeo pela 1ª vez das 5 outras que se seguiriam no Festival de Montreux, criado por Claude Nobs em 1967. Tattoo Lady abre o show mostrando que Gallagher não poupa energia. Ele parece subir ao palco Casino já com o jogo ganho, enquanto a platéia aplaude freneticamente do início ao fim em comemoração pelo show. Mesmo assim, esbanja técnica de slide com sua guitarra – a primeira, comprada aos 15 anos – plugada diretamente num combo Fender. A influência do bluseiro Muddy Waters no guitarrista irlandês – que chegou a acompanhar Waters nos registros de suas London Sessions – aparece nos vocais de Garbage Man, que também dá a deixa para improvisos seus e de Lou Martin ao piano. Sua fala rápida liga as palavras, tanto nas músicas, como quando apresenta uma canção ou sua banda – que além das tecladas Martin, traz Rod De’Ath nas baquetas e o voraz Gerry McAvoy nas quatro cordas. A rebeldia roqueira que arrepia a espinha faz sentido em Cradle Rock, que engata numa conversa de baixo e guitarra que se transforma no clássico bluseiro I’m Tore Down, evidênciando a sintonia entre os membros da banda. Laudromat, hit que abre o primeiro solo de Gallagher, fecha com tamanha energia que, a neve das montanhas de Montreux nunca mais permaneceria da mesma maneira. O quê garante a participação do irlandês nos próximos anos.
1977 – O mesmo palco de dois anos atrás recebe Rory Gallagher que transforma-o num grande playground. Sua guitarra com a pintura descascada é o seu brinquedo preferido. I Take What I Want pega a platéia de assalto em um ritmo feroz. Gallagher toma o palco por completo: corre de ponta a ponta, troteia, dança a la Chuck Berry, incita a platéia se aproximando da beira do palco, solando enfurecidamente. Os movimentos de mão na guitarra parecem saltar aos olhos, principalmente em músicas com pegada forte como Calling Card e Boght and Sold. É perseptivel o rosto suado do guitarrista enquanto entoa os versos de A Million Miles Away. Gallagher aproveita o solo de Secret Agent para mostrar como se solfeja com a guitarra. Do You Read Me é o pico de uma catarse digna de um showman: simples, carismático e persuasivo ao mesmo tempo a ponto deixar a platéia enaltecida gritando: Rory! Rory! Rory!
1979 – O grito primordial introduz o boogie Shin Kicker que dá o índice de que a noite no Casino seria quente. Sem o piano de Lou Martin, passando para o formato trio com Ted McKenna na bateria e mantendo McVoy no baixo, o guitarrista preenche todo o espaço com sua técnica impecável, aliando a uma criatividade infinita e transformando cada solo numa experiência única. A voz de Gallagher remete aos vocais dos bluseiros do Mississippi quando fica sozinho no palco empunhando um dobro para a acústica Too Much Alchool. A levada country de The Last of The Independts mostra um pouco das demais influências que Gallagher ingeriu ao longo de sua formação autodidata. É com a guitarra plugada num Marshall, cheia de fuzz e phaser que ele explora o máximo de feedback durante o show. Em Shadow Play o guitarrista desce até a platéia causando máxima euforia, brinca com a câmera de filmagem e incita os presentes para cantarem virando o seu microfone para eles e cria uma interatividade hipnótica sem exclusões entre público e banda. As artimanhas de entretenimento do músico são exploradas quando este larga a guitarra rosnando efeito sobre o chão do palco, depois puxando-a pelo cabo, abanando-a com uma toalha e, para em seguida, tomá-la de volta aos seus braços e fechar em grande estilo o seu último show no festival nos anos 70.
1985 – Dez anos após a primeira apresentação de Rory Gallagher no festival suíço, o músico volta com a mesma garra e com excesso de experiência para realizar um show mais intimista e com solos mais introspectivos. O guitarrista abusa de efeitos, mas não se rende aos timbres dos instrumentos sintetizados da década perdida, ainda empunhando sua velha stratocaster, sua marca registrada, plugada em Marshalls cada vez mais potentes. Enquanto McAvoy utiliza de um baixo mais limpo. Os tambores e pratos agora servem à batida forte e precisa de Brendan O’Neil. Em Banker’s Blues Gallagher toma os lamentos de Big Bill Broonzy, enquanto é acompanhado por um gaitista. Já Philby, o guitarrista se apropria de uma electric sitar dando um tempero oriental ao seu rock setentista. O guitarrista se despede do festival mostrando suas armas num final esfuziante da pauleira Big Guns.
1994 – “Let’s Gonna Work!” com essa frase que Rory Gallagher dá início a sua última apresentação em Montreux, no grande palco do Stravinski Auditorium. Os músicos que fazem a cozinha neste show – David Levy no baixo e Richard Newman na bateria – já não são tão viscerais quanto os antigos companheiros de palco, que ajudaram a fomentar o som do guitarrista nas décadas passadas. A incapacidade de errar dos músicos deste show é incontestável. Provavelmente é essa extrema precisão e uma aparente passividade na execução das músicas que não se faz equiparar aos delírios musicais promovidos pelos companheiros do guitarrista dos anos anteriores. Mas para anular essa perspectiva a guitarra de Gallagher está lá no topo, impregnada de alma, das dores e dos excessos dos anos de estrada, a ponto de fazer fidelíssimos amantes de Les Pauls desejarem momentos de prazer com uma Fender, ainda mais quando ele pega nos braços uma Telecaster envenenada com um captador Humbucker. No palco, Gallagher toma todas as atenções para seu refinado estilo, baseando-se nos principais clássicos de sua carreira e repleto de blues para deleite da platéia. Em um dos momentos acústicos do show, o músico protagoniza uma jam com o banjo do texano Béla Fleck, e sintonizam a tradicional Amazing Grace, a clássica bluseira Walking Blues para culminar em Blue Moon of Kentucky. Para finalizar Claude Nobs sobe ao palco com sua gaita e, juntamente dos outros músicos que já haviam subido ao palco, para fechar com uma jam insana do clássico I’m Ready de Muddy Waters, o que se tornou o canto do cisne de Rory Gallagher no Montreux Jazz Festival.
2006 – Brasil, os primeiros raios solares começam a se infiltrar pelos buracos da janela. Extasiado não consigo dormir. As performances de Rory Gallagher no recém lançado DVD duplo, tiraram-me do estupor extremo e me dispondo a ouvir toda a discografia deste mestre da guitarra novamente, logo após os vários bônus que acompanham este impagável registro. Entre a agenda do dia e todo o folk, blues, jazz, country, skiffle e rock especialmente destilado nas cordas da guitarra de Gallagher me posto na vertical ‘pronto para mais uma e espero que este Live at Montreux esteja pronto novamente pra mim’.
O MELHOR GUITARRISTA DESCONHECIDO DO GRANDE PÚBLICO (ou RORY GALLAGHER)
Dentre os meus guitarristas preferidos e que alcançaram destaque mundial pelas suas particularidades – Jimi Hendrix pelo controle completo do instrumento; Jimmy Page pela utilização de timbres, camadas sonoras, arranjos e afinações; Eric Clapton pelo seu poder de traduzir o blues em diversos gêneros, além de ser um autêntico mestre bluseiro branco –, é o guitarrista irlandês Rory Gallagher, desconhecido do grande público, que corresponde ao amalgama que geraria se os três primeiros fossem liquefeitos.
A inventividade de Rory Gallagher ultrapassa os limites em Calling Card, lançado em 1976, é o seu oitavo lançamento solo e, o quinto com a formação que incluí Lou Martin ao piano, Rod de’Ath na bateria e Gerry McAvoy no baixo. Este álbum foi o canto do cisne para essa formação que mais se entrosou com Gallagher, potencializando o som do guitarrista.
Algumas mudanças no processo de composição de ‘Calling Card’ diversificaram o rock bluseiro dos primeiros álbuns. ‘Moonchild’ poderia figurar perfeitamente no repertório do Deep Purple. Não por acaso, o baixista da banda, Roger Glover, é o responsável pela produção do álbum. Sua participação se deve ao fato de que Gallagher, produtor de seus álbuns anteriores, buscava novos caminhos para expandir suas idéias baseadas na tradição folk-bluseira.
Essa busca fica evidente na faixa título, ‘Calling Card’, que abusa de uma levada jazz para deixar a guitarra conversar com o piano. Já ‘Contry Mile’ carrega uma potencial surpresa. Embora haja no álbum canções com ascendência jazzística, é no ritmo boogie da canção citada que percebo como ela se encaixaria na voz de Billie Holiday, pois consigo recriar na minha mente a voz da diva do jazz em um arranjo da época em que Holiday estava na Verve. O mais engraçado é que a rouquidão de Rory Gallagher que fez essa sensação tomar forma. Além da surrealista impressão, a música se destaca também pelo excelente timbre único no solo do slide de Gallagher.
Apesar dessas inovações, ele também sobe aproveitar de suas influências tradicionais para criar composições como o single ‘Edge In Blue’, que chegou ao topo da parada americana com seu início suave, e até um pouco piegas, que se transforma numa bela levada country. Os dedilhados de ‘I’ll Admit You Gone’ e ‘Barley and Grape Rag’ retratam a maestria do guitarrista na utilização da técnica sem perder a sensibilidade.
O lado roqueiro do guitarrista não fica para trás neste álbum. Da abertura com ‘Do You Read Me’ que já provoca arrepios na introdução guitarra e bateria. Enquanto ‘Secret Agent’, a faixa mais interessante do disco, revela um intrincado riff que serve como documento de que a guitarra ditou a revolução na música do século passado. Rory cria uma ótima melodia no solo da funkeada ‘Jack-knife Beat’, lembrando muito a mão-lenta de Eric Clapton.
Calling Card ainda traz em sua versão digital mais duas bônus: os power-rocks ‘Rue the Day’ e ‘Public Enemy’ – esta apareceria no álbum Top Priority (1979), mas que fora gravada primeiramente em San Francisco com a formação deste álbum – não ficam aquém da seleção do original. Esse é para deixar no repete e degustá-lo por horas.
PELAS PAREDES DO QUARTO
ROLLING STONES – Sticky Fingers – 1971
Tenho a sensação de que os acordes de Sticky Fingers, lançado em 1971, estão presos entre o cimento e os tijolos da parede do meu quarto, e que ao apertar do play eles começam a criar vida ressoando da parede fria para esquentar o meu quarto e as minhas veias.
Este disco marca uma nova fase na carreira dos Rolling Stones, sendo o primeiro álbum lançado pelo selo criado pelos membros da banda. Embora discos como Beggar’s Banquet (68) e Let it Bleed (69) já esboçassem a evolução criativa da banda, o que caracteriza o som dos hoje geriátricos roqueiros está presente por todo disco produzido “com afeto” por Jimmy Miller, como assegura na ficha técnica.
A capa criada por Andy Warhol, que viria originalmente com um zíper, já sugere o petardo sexy que é ouvir Brown Sugar abrindo os mais de 45 minutos deste deleite stoneano. A essência de rock básico nos riffs marcantes de Keith Richards se entrosa perfeitamente a batida certeira e elegante de Charlie Watts que se alia ao amadurecimento vocal de Mick Jagger para provocar libido extremo aos ouvidos.
Embora tenha substituído o guitarrista Brian Jones em 1969, Mick Taylor parece estar mais íntimo do resto da banda neste álbum, soltando inspiradíssimas melodias nos solos de Sway e Moonlight Mile, além do slide na releitura do clássico bluseiro You Gotta Move, características que o fizeram despontar nos Bluesbreakers de John Mayall antes de ser transformado em um Stone.
A presença de vários clássicos e participações de conhecidos músicos acrescentam o chantilly na bolacha stoneana. A balada Wild Horses e a elucidativa Sister Morphine, com participação de Ry Cooder na guitarra e Jack Nitzche no piano, além da contemplativa I Got the Blues, com um excelente solo de órgão do recém falecido Billy Preston. Bitch traz um groove viril fortalecido pelos metais de Bob Keyes e Jim Price, enquanto a porção caipira da banda aparece em Dead Flowers.
Além de ser imprescindível na estante de qualquer amante do rock and roll, Sticky Fingers seria o primeiro de uma série de registros que marcariam a melhor fase da ‘maior banda de rock do mundo’, como ficara conhecida a banda a partir do início da década de setenta.
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BEM-VINDO A COMPANHIA DE TOM PETTY
Tom Petty reaparece neste ano com mais um disco carregado de violões, em canções muitas vezes bucólicas e contemplativas, enquanto outras te fazem bater o pé ao seu ritmo.
Saving Grace abre Highway Companion dando uma amostra de como o blues pode ser modernizado sem perder sua essência. Os violões de Square One e Flirting With Time me passaram uma sensação de déjà vu, pois parecer terem saído do disco Wildflowers (1994). Tom Petty traz uma característica recorrente nas suas composições : refrões que grudam na cabeça e fazem até os mais timidos balbuciarem suas palavras. Esses refrões aparecem em Big Weekend, Night Driver, na já citada Flirting With Time e com o passar de várias audições você está cantando outros refrões sem perceber.
Down South é uma viagem de ônibus rumo as plantações de algodão do delta do Mississippi, os raios solares se degladiando com nuvens carregadas no céu, mas que parecem esperar o momento certo pra desaguar.
Roy Orbison, ex-parceiro de Traveling Wilburys, deve ter inspirado Petty em fazer Damage by Love. Enquanto Jack carrega uma levada climatizante, além de uma guitarra a la J.J. Cale. Outro companheiro de Wilburys, Jeff Lynne, aparece na produção do disco – que é co-creditada a Tom Petty e o inseparável Heartbreaker Mike Campbell – o que serve para abrilhantar o disco que leva apenas a assinatura de Petty. Mas a porção do tempero Heartbreakers começa ganhar maior destaque a partir de Turn This Car Around. O piano em This Old Town deixa sua marca, sendo uma das melhores faixas do álbum. O timbre da guitarra solo de Ankle Deep é surreal. Para fechar o disco, Petty registra The Golden Rose, que poderia muito bem ser uma faixa de The Last DJ, de 2001, e um dos melhores álbuns de Tom Petty and the Heartbreakers.
Highway Companion talvez por ser mais introspectivo não será um dos mais marcantes da carreira de Tom Petty, terá seus hits que serão figurantes em uma próxima coletânea, mas é muito mais radiofônico do que o é que considerado música boa para as rádios.
ENTRE O FOLK E O ROCK
Neil Young – Everybody Knows This Is Nowhere (1969)
Após lançar-se em carreira solo com seu primeiro álbum, o canadense Neil Young recrutou os músicos de uma banda chamada The Rockets para ensaiar e gravar em apenas duas semanas Evebody Knows This Is Nowhere, lançado em 1969, e garantir que esse registro entrasse para o grande mundo dos clássicos do rock. A química que rolou entre o guitarrista e os companheiros Billy Talbot (baixista), Ralph Molina (baterista) e Danny Whitten (guitarrista) foi de uma dose tão cavalar que, o nome da banda não poderia ser mais adequado: Crazy Horse.
Cinnamon Girl abre o disco dando amostras que a batida precisa do grupo seria a companheira perfeita para os delírios guitarrísticos de Young – sua marca registrada – e que reapareceriam ao longo do disco em Down by the River e Cowgirl in the Sand, que fecha o álbum num momento singular para todo o folk-rock da época. A voz cheia de angústia é paralelamente reconfortada pelo violino de Bobby Notkoff em Running Dry (Requiem For The Rockets), um contraponto com o resto do álbum que foi gravado praticamente ao vivo no estúdio. A música que dá título ao álbum e The Losing End (When You’re On), mostram que Young transpôs o som de sua antiga banda, a Buffalo Springfield, para sua nova empreitada. Round & Round (It Won’t Be Long) traz a participação da cantora Robin Lane, num dueto vocal com Neil, que parece desfocar da linha evolutiva do disco, mas ele mostra seu estilo inconfundível no violão e inspiração suficiente para não deixar a bola cair.
Produzido por David Briggs, o álbum permaneceu por quase cem semanas nas paradas americanas e é uma amostra do poder que o folk-rock exerceu na década de sessenta.






