Um blog para loucos e para raros.

bandas americanas

Pimentas Recheadas

O Red Hot é uma das poucas bandas que conseguem lançar um trabalho que traga mais de dois sucessos. Preferem abusar da criatividade, antes de se esgotar na exploração de um único single

O que dizer de um álbum que foi produzido por Rick Rubin? O produtor de maior impacto dos anos 90. O que dizer de um álbum que teve como engenheiro de som Brendan O’Brian? O responsável pelos principais álbuns de rock da mesma década – vide ficha técnica de vários álbuns do Pearl Jam. O que dizer de um álbum que foi dedicado para Mike Watt? O baixista mais descerebrado do grunge e que nesta década se reuniu aos veteranos Stooges, banda que cutucou o útero de gestação do punk.

Há algo mais a dizer quando se trata de um disco dos Red Hot Chili Peppers? Que tal que este disco levou a banda para o topo das paradas. Blood Sugar Sex Magic elevou a enésima potência a química iniciada em Mother’s Milk, disco de 1989, com a entrada de Chad Smith na bateria e John Frusciante na guitarra – este último um dos melhores de seu instrumento que apareceram nos anos 90. Neste álbum os músicos exploram toda sua técnica como instrumentistas sem perder o feeling, enquanto mostram o Phd retirado anos antes com o pai do funk-rock George Clinton. Que Blood Sugar Sex Magic contém uma cover do mítico bluesman Robert Johnson, mas que o resto das canções foram criadas quando a banda se trancou em uma mansão, só saindo de lá quando tinha em mãos faixas estupidamente cheias de sangue, ‘açúcar’ (para os desavisados leia-se drogas), sexo e magia.

O Red Hot é uma das poucas bandas que conseguem lançar um trabalho que traga mais de dois sucessos. Eles Preferem abusar da criatividade, antes de se esgotar na exploração de um único single. Para provar isso, o set-hit-list do álbum é grande, e muitas destas canções são parte do inconsciente coletivo pós-MTV: Suck My Kiss, Give It Away, Under the Bridge, Power of Equality, Breaking the Girl e BloodSugarSexMagic, faixa que dá título ao apimentado trabalho, lançado em 1991. Some a isso mais dez canções que esquentam o molho sonoro de qualquer aparelho, sem deixar nada aos ingredientes já mencionados.

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PS.: o álbum ainda contém, em sua versão norte-americana, o típico adesivo de advertência de conteúdo explícito, muito comum nos anos 90, que acabou tendo sua função reutilizada, tornando uma marca de provocação para a juventude que consumia qualquer material que tivesse o selo estampado bem na capa, resultando em vendas astronômicas para a indústria fonográfica, cuja qual utilizou o signo em lugares que nem necessitava de aviso de conteúdo – mas que careciam de um aviso sobre má qualidade musical – e que no final, chafurdou  na lama, desgastado pelo excesso, ironia? Não, consumismo exacerbado.


Saindo uma quentinha: Warpaint Live

Um ano após o lançamento de Warpaint, que quebrou o hiato de sete anos sem material novo, a banda Black Crowes retorna com o conteúdo do álbum estendido e ao vivo.

O dia 28 de Abril marca, lá fora, o lançamento de Warpaint Live ao mercado da audição, seja ele físico ou virtual, embora sabemos que nas vias digitais, a possibilidade do lançamento está relacionada ao seu vazamento. No formato físico, com edição pela Eagle Records, são dois CD’s que incluem as interpretações viscerais e apaixonadas da atual turnê. Os registros foram retirados das apresentações sold out que a banda fez em Los Angeles. A primeira bolacha está todo o material de Warpaint devidamente retrabalhado para o palco, com as sempre viagens musicais que uma boa jam band sempre preza por realizar. Na outra parte do pacote figuram duas autorias que ajudaram os irmãos Robinson a serem reconhecidos como compositores do mais precioso rock and roll clássico promovido nos anos 90, aliado de vários covers feitos nos anos 60 e 70, como, por exemplo, Torn and Frayed, peça fácil nas apresentações do grupo desde o seu início, uma viagem folk da obra-prima dos Stones, Exile On Main St. (1972). Um registro em DVD com o conteúdo das apresentações da Euphoria or Bust Tour – que celebram o álbum Warpaint e o debuto em vídeo para os novos integrantes: o tecladista Adam MacDougall, e o guitarrista Luther Dickinson – está prometido para sair ainda este ano.

Warpaint Live pode não ser uma grande notícia de lançamento. Pois, não só por parte da atual desvinculação de música através do suporte físico. Mas, devido há dois fatores protagonizados pela banda: os próprios membros incentivaram os fãs a gravarem seus shows desde o início da carreira, causando um conglomerado de material ao vivo disponível pela internet; e, recentemente, a criação do Live Black Crowes, site específico para venda de downloads dos shows, há material disponível desde a turnê de 1996, que promoveu o álbum Three Snakes and One Charm, do mesmo ano. Mas, é óbvio, que Warpaint Live ganha pontos através de uma boa mixagem e masterização de estúdio, pois a maioria das gravações que pipocam pela internet não passaram pelo tratamento de uma boa mesa de som.

Quanto ao DVD, previsto para sair dia 30 de junho, este sim, pode surpreender. Não só por existir um registro visual da atual formação, mostrando seu excelente entrosamento, mas para atualizar a experiência do incrível vídeo Freak ‘n’ Roll… Into the Fog (2006) que, dentro de um ‘Olímpo do Rock’ credenciado como Fillmore, em São Francisco, a banda registrou a volta, mesmo que não por muito tempo, da criatividade e personalidade musical ímpar de Marc Ford, o guitarrista que projetou os solos mais doidos e setentistas que uma banda voltada para as raízes do rock clássico poderia almejar.

Abaixo, uma amostra da Euphoria or Bust Tour:

E a turnê anterior, All Join Hands, que gerou o DVD

Freak ‘n’ Roll …Into The Fog:

 

 

Leia a resenha do álbum Warpaint publicada aqui no Discoteclando.

 


Beleza auditiva na medida certa

Dupla She & Him compõe pop perfeito do início dos sixties transbordando originalidade em plena decadência das gravadoras que criaram o status quo dos hits de 3 minutos para rádios e paradas.

Quando Zooey Deschanel pronunciou as seguintes palavras “One day you’ll be cool” ao interpretar a irmã mais velha do menino que queria ser jornalista de rock em Quase Famosos, mal sabia ela que esta frase serviria para si anos depois. Zooey conseguiu ao formar o duo She and Him – juntamente com seu parceiro M. Ward – e lançar (mais ou menos nesta mesma época só que há um ano atrás) o álbum mais ‘cool’ de 2008, sendo o mais pop e sessentista possível.

Calcada nas vocalizações de grupos pop como Beach Boys, a dupla She & Him montou um caleidoscópio de referências de época. Basta ouvir a canção ‘Why Do You Let Me Stay Here?’ e logo a pergunta surgirá: essa música não foi um hit nas paradas dos anos 60? Não, mas poderia. Ela tem o apelo certo, é leve e contagiante, uma canção pop perfeita que se faz incontrolável em sua audição e, mesmo assim, não fica cansativa. Para fortificar essa impressão, Zooey abusa de seus dotes de atriz e atua com animações no clipe da música (assista logo abaixo), seus vestidos tipicamente de época também ajudam a formar o clima.

Mas voltando ao álbum, a maioria das canções de Volume One não ultrapassam os três minutos, a abertura é certeira com ‘Sentimental Heart’, simplesmente bela. Zooey tem uma voz certa para esse tipo de música, e seu parceiro Ward abusa sabiamente de violões. Há também pianos flertando com violões, belos slides puxando as boas lembranças de verões felizes. Cordas aparecem e desaparecem para não deixar o clima incompleto e deixar aquela sensação de primeira metade dos anos 60 aflorada.

Ainda se encontra muito de Beach Boys como influência permanente, mas há também alusões ao folk californiano,  country e ao  soul, além de toques de Todd Rundgren, Ronettes e, obviamente, uma sensação Carpenters. São os ecos de Pet Sounds ainda fazendo sinapses.

Why Do You Let Me Stay Here?



Manual de Influências, Vol. I

 

CHRIS ROBINSON – New Earth Mud (2002)

Guardadas as devidas proporções, o primeiro álbum solo do vocalista do Black Crowes, Chris Robinson, pode trazer a comparação ocorrida no lançamento do primeiro trabalho de sua banda, em 1990. Enquanto Shake Your Money Maker fazia a mídia especializada retirar a poeira dos discos do grupo Faces para se assegurar de suas suspeitas, o lançamento de New Earth Mud, em 2002, voltou-se os ouvidos para os primeiros álbuns solo do ex-vocalista do Faces, o hoje elegante-cafona Rod Stewart (sim, para os mais incrédulos e para os menos informados, Rod Stewart já fora um extravagante roqueiro nos anos 70). Enquanto no Black Crowes as guitarras puxavam as rédeas das músicas, como nos trabalhos do Faces, é no trabalho solo de Robinson que os violões e vocais ganham a frente das canções como nos álbuns de Stewart. Quer conferir a influência? Então assista os vídeos abaixo e veja Stewart no Faces, e Robinson no Black Crowes, para ver se o manual foi seguido à risca.

New Earth Mud traz as guitarras e teclados fazendo desenhos melódicos para iluminar violões que estão por todo o álbum. A voz de Robinson se apresenta menos rasgada, enquanto algumas letras carregam a paixão do vocalista pela atriz Kate Hudson, hoje sua ex-esposa, que ganha papel principal em ‘Katie Dear’, e recebe o Oscar de coadjuvante por ser inspiração em outras canções, como ‘Cold You Really Love Me’, ‘Safe In The Arms of Love’ e ‘She’s On Her Way’.

‘Untangle My Mind’ poderia passar por uma das faixas no segundo álbum de Lenny Kravitz, Mama Said (1991). Já, a funkeada ‘Ride’ traz o balanço de Sly and Family Stone para fazer a festa, enquanto Stevie Wonder de Superstition dança ao sol.

E esse Sol parece ser o outro inspirador do álbum. Desde as fotos da capa e encarte, até as músicas refletem o momento iluminado de Robinson. Enquanto canções como ‘Sunday Sound’, ‘Better Than The Sun’ e a já citada ‘She’s On Her Way’, servem de trilha sonora para manhãs iluminadas de verão. Outras como ‘Barefoot By The Cherry Tree’, ‘Fables’ e ‘Kids That Ain’t Got None’ ganham os raios de um pôr-do-sol vermelho, sereno e reflexivo.

A influência de um artista sobre outro é inevitável e benéfica para se ter um parâmetro para desenvolver um estilo próprio. Rod Stewart tem como sua maior influência Sam Cooke, mas sempre ficou apenas com o trabalho de vocalista, raramente tocando uma base de violão ou algum dedilhado no banjo. Robinson não deixou por menos, e vai um pouco mais além de sua maior influência. Pois se encarregou da percussão, de violões e guitarra base, além da direção artística. Não se rendendo ao caminho fácil dos últimos lançamentos de Stewart. Robinson percorre toda a cartilha do rock and roll, sabendo agregar as melhores qualidades de outros músicos.

Nos trabalhos solos de Stewart, o hoje Stone, Ronnie Wood era o responsável pelos arranjos e violões inspiradíssimos nas músicas que o vocalista beberrão explorava seus mais variados dotes vocais. No caso de Robinson, a parceria é com o músico-amigo Paul Stacey, que atualmente empunha a segunda guitarra no Black Crowes e, foi responsável por grande parte dos instrumentos deste álbum.

Para um primeiro disco solo de vendagem moderada, New Earth Mud ganhou bonificações em alguns países. A versão francesa recebeu três faixas ao vivo em formato acústico, enquanto a americana está acompanhada de um DVD com uma das apresentações do cantor e de Stacey nos violões. Por aqui, o disco só chegou via internet mesmo.

Rod Stewart no Faces

 

Chris Robinson no Black Crowes

 


Os “Ex” no My Space: Eddie Harsch

Quem se lembra da questão-clichê ‘Que fim levou …?’ e tem algum artista que se encaixaria no lugar das reticências?. A experiência investigativa pode ser reativada agora  com apenas alguns cliques através do MySpace, pois aquele músico que tocou em alguma banda de sucesso e que, após sua saída, não engatou uma carreira não divulgada pela grande mídia, pode ser encontrado fazendo algum trabalho interessante. É o caso de Eddie Harsch, ex-tecladista do Black Crowes, atualmente disponibilizando suas teclas, e seu fraseado bluesy, para a banda Bulldog, de Detroit.

A Bulldog lançou um álbum homônimo, disponível pelo site de música independente CD Baby, em que o folk-rock produzido é fortemente influênciado por pilares do  gênero como Gram Parsons, Bob Dylan e Neil Young, mas que remete bem mais para Ryan Adams, muito devido ao vocal de Kenny Tudrick, principal compositor da banda, guitarrista, que também atende pela egotrip de Bulldog.  Mas, a grande elegância nas composições se deve muito aos fraseados de Harsch – singelos e arrepiantes nos momentos precisos, e contemplativos em meios aos vocais, vide ‘South Dakota Sad Eye‘ – enquanto o pedal-steel de Pete Ballard cria o clima de filme western, como em ‘Shelter‘, bem como a melancolia bucólica, típica do instrumento,  em canções como ‘Badlands’ e ‘Just a Knife in the Back’. A abertura é bem Bod Dylan, com direito a gaita, em ‘Crash and Burn‘, e o álbum vai bem até o fim, com a obscura ‘Blinded‘, um elemento tipicamente inglês, um Beatles da fase Abbey Road. O álbum também reserva uma curiosa surpresa na penúltima faixa, ‘Ain’t Right’, que lembra, justamente, o repertório do primeiro álbum da ex-banda de Harsch, cujo qual ele não participou das gravações, pois entrou para a banda em 1991, em meio a turnê de divulgação do mesmo – o álbum Shake Your Money Maker (1990) teve suas a cargo de Chuck Leavell, tecladista dos Rolling Stones, mas que já  tocou com Allman Brothers, Eric Clapton e outros, mas isso já é outra história.

HISTÓRICO

eddie harsch

Harsch, que já havia tocado com os blueseiros Muddy Waters e Albert Collins, entrou para os Black Crowes em 1991, permanecendo com a banda  até 2006. O tecladista deixou seu posto  com alguns dias de diferença da saída  do  guitarrista Marc Ford, que partiu para carreira solo. A alegação oficial foi por problemas de saúde.

Seus trabalhos com o Black Crowes são: The Southern Harmony and the Musical Companion (1992), Amorica (1994), Three Snakes and One Charm (1996), By Your Side (1999), e Lions (2001), todos de estúdio. Ao vivo, com a banda sairam Live at the Greek (revisitando juntamente com Jimmy Page, clássicos do Led Zeppelin e covers de Blues, 2000), Live (2002), e Freak ‘N’ Roll…Into the Fog (2006), que saiu tanto em vídeo como em aúdio.


TOP OF THE ROCK’S 2007

Por mais que algumas pessoas não gostem de listas, talvez porque ainda não entenderam a diversão que é fazer, ler, discutir, reformular, entre outras coisas, eu decidi fazer uma e refletir rapidamente sobre os álbuns que mais tocaram nas minhas caixas de som em 2007. Sugestões sobre álbuns que não entraram nesta lista podem ser deixadas nos comentários. Para que os álbuns indicados recebam a atenção devida, sejam resenhados, e apareçam por aqui futuramente, ou não.

Robert Plant & Alisson Krauss – Raising Sand (Outubro)

Alisson Krauss é a expressão do bluesgrass que Robert Plant, ex-vocalista do Led Zeppelin, sempre desejou ser. As versões de canções tradicionais e outras de qualidade ímpar apresentam uma energia sobrenatural, rústica – mas com tratamento sonoro moderno – para duas vozes que mereciam se encontrar. O estado de pureza deste álbum é apresentado através de um ritmo originalmente americano, muito mais próximo do som que Plant protagonizou com sua antiga banda, do que com as viagens orientais em seus últimos álbuns solo.

Iron and Wine – The Shepherd’s Dog (Setembro)

A voz quase sussurrada da banda de um homem só, Samuel Beam, teve sua produção low-profile transmutada para um álbum de qualidade peculiar, para que as nuances musicais casassem de maneira vital. Do folk tipicamente americano de voz e violão, emergiu uma forma em que os ritmos e percussões climatizam a mente para uma viagem musical por outras terras. Instrumentos e ritmos não convencionais ao estilo anglo-saxônico – oriundos da América Latina, ou percussões orientais – aparecessem nas composições deste álbum, criando um minimalismo musical extraordinário e extremamente saudável de audição.

Patti Smith – Twelve (Abril)

A poeta do rock sempre protagonizou covers com excelência, originalidade e muitas intervenções nas letras. Neste álbum ela simplesmente escolheu canções que tivessem força em sua mente, que lhe agradassem, e mostrou como elas podem em muitos momentos serem melhores do que são nas suas versões originais. Do mais inusitado, como Everybody Wants to Rule The World, do Tears for Fears – que aparece aqui com muito mais impacto do que na original – a esperada Gimme Shelter, dos Stones – trazendo o clima pesado da gravação original, esquecida um pouco das versões apresentadas ao vivo pelos autores – há também a versão campestre para Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, ou com desfecho onírico de Pastime Paradise, Patti prova que, tratados com respeito e seriedade, essas canções podem parir novos sentimentos, reacender outros já esquecidos, e dar a verdadeira paisagem para algo que não era tão comovente.

Wilco – Sky Blue Sky (Maio)

A banda de Jeff Tweedy protagonizou um álbum em que os delírios guitarrísticos de Neil Young se unem a melodia pop de Paul McCartney, quando este estava na fase mais introspectiva dos Beatles. A banda gravava enquanto compunha o álbum, isso fez com que a sensibilidade da criação fosse sentida através das caixas de som. Este é provavelmente o melhor álbum que o Wilco produziu até o momento. Já foi resenhado aqui anteriormente.

Amy Winehouse – Back To Black (Dec-2006/2007)

Como o álbum mais desbocado e comentado de 2007 teve sua primeira versão lançada em 19 de Dezembro de 2006, e as outras seis versões em 2007, não podemos dar de ombros, e dar as boas vindas para a black music da senhora da taberna, Amy Winehouse. As canções são cheias de desespero e bebida.
Amy apresenta a doçura da dor de seu amor em letras pesadas, enquanto o soul que se espalha pelo álbum é moderno e, ao mesmo tempo, caracteristicamente focado na geração Motown. Se tivesse lançado pela gravadora em sua fase áurea, ninguém perceberia a diferença.


UMA REALIDADE AMERICANA

Grateful Dead – American Beauty (1970)

Primeiramente, admito que geralmente considero os primeiros trabalhos da maioria das bandas que ouço, e continuo ouvindo, soarem bem melhores do que os seus sucessores. Eles costumam apresentar a banda em seus momentos mais inspirados, sem amarras sobre pressão de vendas e contratos.

No caso do Grateful Dead, admito o contrário. Nada que a banda tenha feito antes de American Beauty, seu sexto álbum, pode se considerar tão bacana quanto esse lançamento do final de 1970. O Dead, como é carinhosamente conhecido pelos seus fãs, sempre foi mais adepto a viagem sonora dos shows, do que nas viagens lisérgicas de estúdio. Suas apresentações renderam infinitos registros – piratas e oficiais – com extensas jam’s em poucas músicas. Eles tornaram-se a melhor representação musical de toda a manifestação hippie que rolava na Costa Oeste dos Estados Unidos.

American Beauty parece ser a ressaca sobre a “infinita” festa que foram os lisérgicos anos 60. Sem longos solos de guitarras, ou músicas intermináveis, a beleza deste registro está em muitos violões, piano, bandolim e instigantes pensamentos sobre o que estava acontecendo em volta da banda, sobre a vida após o sonho, e a visão da realidade. Isto é posto em cheque na capa do disco: o desenho psicodélico na capa sugere a leitura de American Reality, invés da beleza original.

As inúmeras tragédias pessoais e familiares dos integrantes fomentaram letras que buscavam espiritualidade no lugar dos prazeres corporais. O misto de country, blues, folk e soul são o caldo para letras sobre a natureza humana, a morte, e o passar do tempo. A seqüência das 10 canções é tão perfeita, que a inclusão de faixas bônus na edição remasterizada em CD, acaba não fazendo muita diferença.

E como a realidade brasileira é outra, American Beauty sofreu a falta de interesse do braço nacional da multinacional Warner, detentora desta gravação, pois nunca lançou a bolacha no país. Já sua pequena concorrente, a gravadora ST2, lançou por aqui em DVD, pela série Classic Albuns, ‘Anthem to Beauty’, com o making of de dois clássicos da banda, o próprio American Beauty acrescido do difícil Anthem of the Sun, de 1968.


A NOVA PINTURA DOS CORVOS

Black Crowes – Warpaint – 2008

Após sete anos sem lançar material inédito, a Black Crowes pinta a cara e faz a (r)evolução musical do seu rock retrô. Assim como os Rolling Stones fizeram em 1970, ao criar o seu próprio selo para lançar a melhor safra de sua duradoura carreira, ou o Led Zeppelin, que também fez o mesmo, criando o selo Swan Song e colocando o álbum duplo Physical Graffiti na praça em 1975, os Crowes criaram o selo Silver Arrow, depois de 18 anos de estrada e apenas 6 álbuns de estúdio. Warpaint é um complexo de dez inéditas e mais uma interpretação pesada do blues God’s Got It, clássico do Reverendo Charlie Jackson, que remete ao mesmo poder de Back of My Hand, o blues raiz que os Stones compuseram para seu último álbum, A Bigger Bang, de 2005.

Warpaint traz também novos corvos para a batalha: além da produção de Paul Stacey, que havia substituído o guitarrista Marc Ford na turnê All Join Hands, mas que não se alistou no front de batalha para a nova turnê, temos o guitarrista Luther Dickinson, oriundo do North Mississippi Allstars, mais o tecladista Adam MacDougall.

Cheio de blues, folk e psicodelia, o álbum gravado em três semanas em Nova Iorque, tem personalidade forte, consistente e se distingue bem dos trabalhos anteriores, embora algumas canções possam se aproximar das viagens e do clima de 3 Snakes and 1 Charm, lançado 1996. São perceptíveis também as características que fizeram da banda uma referência concreta para o rock and roll feito nos anos 60 e 70, além da originalidade e, ao mesmo tempo, reverência que possam colocá-los ao lado dos grandes artistas do rock clássico. O álbum foi gravado ao vivo em julho do ano passado, com o mínimo de takes possíveis, não traz nenhuma canção que fora composta anteriormente, e evidencia a progressão musical natural da discografia da banda de Atlanta, principalmente, para quem a acompanha desde seu início, isso fica mais perceptível. O álbum não é necessariamente conceitual, mas as letras remetem aos valores da revolução contracultural que foi deixada para trás por aqueles que a protagonizaram, e seus filhos que não a seguiram.

Goodbye Daughters of Revolution é a flechada inicial, lançada em single no final de Janeiro e abrindo perfeitamente Warpaint. Embora eles estejam dando adeus os filhos da revolução, dão boas vindas aos órfãos da geração hippie com um som tipicamente Black Crowes, ou seja, tipicamente rock and roll clássico, e mantendo a chama viva.

Walk Believer Walk é outra com um peso preciso, calcada no blues, e como definiu Chris Robinson “cheia de veneno para incrédulos”.

Oh Josephine é soul, gospel, country e psicodelia misturados, batidos e temperados de maneira original para uma balada que Chris considera a melhor canção que ele Rich compuseram.

Evergreen tem o mesmo sabor das músicas do álbum solo de Rich Robison, Paper (2004), um solo excêntrico e arrepiante de Luther Dickinson, e foi gravada em só take.

Wee Who See The Deep, é pesada, funk e louca!!! A guitarra slide duela com os maneirismos vocais de Robinson. Jimmy Page e Robert Plant fizeram escola.

Locust Street traz os raios solares da Califórnia para o álbum, balada de beleza singela, com violões e mandolin contrapondo ao clima pesado da letra, em que Chris Robinson tem uma visão Bob Dylan de seu país.

Movin’ Down The Line foi a primeira a ser gravada nas sessões do álbum. Traz várias mudanças rítmicas e climáticas, ‘mas está tudo certo, irmãs e irmãos’. Chris está arrebentando na gaita e um primor nos vocais.

Wounded Bird é uma das melhores faixas do álbum, rock direto, refrão viajante, contagiante e básico. Apenas libere sua mente e viaje.

There’s Gold In Them Hills é outra balada em que Chris Robinson avalia a vida de artista, sua beleza artística e sua prostituição mercadológica ao efeito do tempo de sua própria carreira. O trabalho do novo tecladista ganha destaque nessa faixa.

Whoa Mule é a música mais otimista do álbum e foi escolhida para fechar o ritual de guerra do Black Crowes em Warpaint. Ritmos apaches, misturados com o folk europeu, canto indígena americano encontrando as raízes indianas e celtas das terras mais antigas do mundo.

PRIMEIRA IMPRESSÕES (Segundas Intenções) I

Andei por aí pesquisando futuros lançamentos, e repasso algumas primeiras impressões. Não que elas virem um fato, ou caiam com o tempo e a audição completa dos registros, mas ‘eu não tô fazendo nada e você também’:
Black CrowesWarpaint é o nome do novo álbum – depois de sete anos de espera por um trabalho completo de canções novas, o último foi Lions (2001) – e sai pelo selo criado pela banda, Silver Arrow (nome típicamente Neil Young), o que pode soar como um bom futuro de novos registros, mas com eles nunca se sabe. No site repaginado dá para ouvir a nova Goodbye Daughters of Revolution. Ótimo ‘retorno’. Parece voltar com o espírito de 3 Snakes and 1 Charm, disco de (1996). Com os novos integrantes – mais uma vez!!! – Luther Dickinson na guitarra, vindo do North Mississippi Allstars (que põe no mercado este mês Hernando); e Adam Mcdougall, que eu desconheço, nas teclas, os irmãos Robinson provavelmente terão um dos melhores registros de 2008, o folk clássico é a influência da vez. O álbum sairá em 4 de Março e foi produzido pelo parceiro da carreira solo de Chris Robinson, Paul Stacey, que havia substituído Marc Ford, quando ele caiu fora da revoada da turne Join Hands. Saldo: Extremamente Positivo.

Lennny Kravitz – Com o sugestivo título de It Is Time for a Love Revolution, o multi-instrumentista e praticamente ‘one man record’, pois grava quase que sozinho seus álbuns, largou mão da frescura de chapinha no cabelo e intervenções eletrônicas para se dedicar ao que ele faz de melhor: rock básico com aqueles timbres setentistas e baladas de bom gosto e solos inspirados. Bring It On é a primeira pauleira, e I’ll Be Waiting é a balada que tocará insessantemente nas rádios e na MTV, mas é consistente como Again e tem todas as características de uma balada a la Sr. Kravitz, já está no Youtube. É tempo de voltar a ouvir Lenny Kravitz. Álbum prometido para 05 de Fevereiro. Saldo: por ter ouvido apenas duas canções, e as duas serem excelentes, é positivo. É esperar, pouco, para concretizar a profecia, ou a prece…

Sheryl Crow – Seu novo trabalho, Detours, tem uma capa simples e bela, como o som de um violão. Pelo site da cantora ouvi algumas canções do álbum e, aparentemente, ela está largando – ou tentando largar – algumas frescuras pop paulatinamente, dando pinçadas de um pouco do que a fizeram uma boa cantora – leia-se os trabalhos Sheryl Crow (1996) e Globe Sessions (1998) – além de aumentar o flerte folk no seu trabalho. Uma coisa que chamou atenção é os backings femininos, ou a quantidade deles nas canções. Now That You’re Gone é uma que apresenta isso, e decepciona. Fique com a canção de mesmo nome de Ryan Adams. Detours, que dá título ao álbum, vai ficar boa ao vivo. Gasoline é a típica Sheryl dos seus antigos álbuns, boa candidata para uma das melhores do álbum. Motivation motiva, mas não decola. Out Of Our Heads é estranhamente deliciosa, ou um momento de fraqueza minha. Drunk with the Thought of You, bela e pronto. Make It Go Away me remeteu ao clima soturno de Riverwide. Love Is All There Is é mais uma para tocar naquelas FM’s insossas, ou para ter um clipe naqueles canais de música country pop americanos, fuja. Diamond Ring, hum… já conheço uma música com esse nome e não troco ela por outra. Peace Be Upon Us, passou e eu não percebi. Lullaby For Wyatt, Sheryl + violão dedilhado + (piano + cello) = Lullaby’s. God Bless This Mess, isso é uma boa canção folk para a Sheryl Crow. Shine Over Babylon é uma daquelas que ela já fez. Saldo: não é positivo, não é negativo, mas é preciso melhorar, ou ouvir mais, para descartar ou selecionar o que pode ir para o seu mp3 player. Leve em consideração os trabalhos anteriores e ela ser uma artista engajada mas não chata. Chega em formato físico no segundo dia de fevereiro.

SEGUINDO O INSTINTO

Ben Harper and the Innocent Criminals – Lifeline – 2007

A oitava produção de Ben Harper, Lifeline, contém o ‘amálgama de banda’ que não foi explorado em seu disco anterior, duplo e, até um tanto conceitual, Both Sides of the Gun, de 2006.

Extremamente trabalhado nas passagens de som durante a turnê de Both Sides’, as canções foram bem estruturadas para, em apenas uma semana de novembro de 2006, serem gravadas todas em processo analógico, em um estúdio em Paris, algo que Harper almejava há tempos.

As canções de Lifeline não trazem as viagens de Weissenborn características de Harper, a não ser pela penúltima, a instrumental e acústica “Paris Sunrise #7″, feita inteiramente no instrumento. Lifeline agrega as letras do músico californiano com o trabalho instrumental de todos os integrantes da Innocent Criminals – atualmente formada por Juan Nelson (baixo), Oliver Charles (bateria), Leon Mobiley (percussão), Jason Yates (teclados) e o novo integrante, Michael Ward, ex-Wallflowers.

Compare as capas de Both Sides of the Gun e Lifeline. No trabalho anterior, Harper aparece sozinho de braços cruzados na capa, enquanto em Lifeline, o músico está na mesma posição, mas rodeado de seus escudeiros, demonstrando que é um trabalho de banda.

Há muito soul em todas suas vertentes pelas faixas de Lifeline. Mas, há também um pouco de black tipicamente Motown, country e até o Ben Harper do início de carreira. “Fool for a Lonesome Train” lembra os Stones country do início da década de 70, quando Gram Parsons era uma grande influência para Keith Richards. “Heart of Matters” e “Say Will You” estão bem próximas do trabalho realizado em There Will Be A Light (2004 – e resenhado aqui anteriormente), parceria com os músicos do Blind Boys of Alabama. Inclusive, se colocarmos de lado o trabalho anterior de Harper, Lifeline parece uma seqüência lógica para o som desenvolvido em There Will Be A Light.

Mesmo tendo ficado nove meses na gaveta, e com pouco mais de 40 minutos, Lifeline não decepciona quem se deliciou com a abrangência musical de Both Sides of the Gun. Singelo e inspirado, o trabalho gravado em Paris está bem acima das produções de alta tecnologia que rodam por aí. Lifeline mostra que Ben Harper segue seu instinto. E, mesmo sendo um músico extraordinário, está acima de qualquer ego que possa prejudicar o principal fator de se produzir boa música.

UMA SURPRESA IRRESISTÍVEL

WILCO – Sky Blue Sky (2007)

“Eu devo ficar satisfeito, eu não morri”. Essa é parte da letra de Sky Blue Sky, música que também acabou batizando o sexto álbum de estúdio do Wilco, lançado neste ano. A frase parece ironizar a capacidade de artistas, como Sir Mick Jagger, de sentirem-se insatisfeitos desde a década de 60, e ainda buscarem mais, mesmo estando com mais de 60. Mas um disco da banda de Jeff Tweddy, o homem cérebro do Wilco, não serve apenas para isso. A ainda sensação independente da banda os coloca numa espécie de mainstream paralelo e indiferente às paradas americanas que tentam ditar o que é cool.

Embora alguns críticos retalharam o álbum e, consequentemente, Tweddy, Sky Blue Sky caminha sereno entre os melhores trabalhos da banda, e um dos melhores do ano. Agora como um sexteto, com a adição do guitarrista Nels Cline e do multi-instrumentista Pat Sansone, o Wilco se fechou em estúdio e trabalhou sentimentos de maneira racional e sóbria nas letras, colocando a parte passional em belos arranjos que foram estruturados detalhadamente por todo o álbum. Sem experimentalismos desta vez, a sensação é de que as letras foram compostas depois de cada arranjo pronto, pois, as guitarras são o foco principal deste céu monocromático, mas sempre belo, de Sky Blue Sky. Mas essa não é uma sensação óbvia. Apesar de alguns solos tipicamente Neil Young roqueiro, a maioria das canções lembram um McCartney melodioso, ou mesmo o soft rock setentista, mesmo porque as foram gravadas ao vivo no estúdio, recebendo sobreposições posteriormente, dá pra sentir os instrumentos vazando pelos microfones alheios. As guitarras estão expostas sem distorções ofuscantes, experimentalismos com microfonias, ou harmonias monocórdias.

O álbum parece um Neil Young meets Beatles, com ênfase nas composições de McCartney. Embora seja nítida a apreciação do velhinho canadense pelo parceiro morto de McCartney, é no Wilco que a junção Young-McCartney soa frutífera. A primeira porção deste amálgama aparece em You Are My Face, outro exemplo ótimo fica por conta de Hate It Here. O lado apenas alt-country de SummerTeeth (1999), é revisto em What Light e Please Be Pacient With Me. Enquanto Walken e On and On and On soam exatamente como uma composição do Beatle Paul, muito por conta do piano de Mikael Jorgensen. É essa aparentemente bagunça de country, folk e soft rock misturado e adoçado com uma psicodélica de dedicação beatle para composições é o grande atrativo em Sky Blue Sky.

Este álbum entrou na lista dos melhores de 2007. Confira o post!!!


A VIDA É COMPLICADA

ALLMAN BROTHERS BAND

American University 12/13/70 (2002)

É complicado. Complicado porque a cada audição de American University 12/13/70, eu me pergunto por que uma banda que lançou um dos discos ao vivo mais legais da história – a saber, At Fillmore East – se prontificaria a cometer a heresia de lançar, trinta e dois anos depois, um ao vivo da mesma época? Poderia afirmar logo de cara que é mais um caça-níquel pronto para arrebatar o bolso dos corações mais fanáticos? Não quando um disco poderia vir da Allman Brothers Band com Duane Allman, um dos guitarristas mais bacanas do Southern Rock, já justificando a aquisição imediata. Principalmente porque Duanne morreu em um acidente de moto, em outubro de 1971.

Mas é complicado. As músicas do Fillmore foram distribuídas em vários lançamentos durante toda a carreira

da banda. A versão original ganhou automaticamente o emblemático rótulo de um dos melhores ao vivo de todos os tempos, contendo apenas seis faixas. Em fevereiro de 1972, sairia o misto de estúdio e ao vivo, Eat A Peach, com mais duas faixas dos shows no Fillmore. Em Duanne Allman Anthology, volumes I (1972) e II (1974), Don’t Keep Me Wonderin’ e Midnight Rider apareceriam retiradas do palco mais famosodos anos 60, mas até então eram inéditas, bem como Drunken Hearted Boy, que apareceria em 1989, na suntuosa caixa Dreams. Quando lançaram Fillmore Concerts, contendo quase que a totalidade das faixas espalhadas pelos lançamentos anteriores, o cheiro do bolso sendo lesado foi inevitável. Mas, para os mais entusiastas, em 2003 chega às lojas At Fillmore East (Deluxe Edition), contendo todas as faixas já apreciadas nos lançamentos anteriores. Então, você se perguntaria qual a finalidade de mais um lançamento? E ela se explicaria numa embalagem para deixar babar qualquer colecionador de CD’s. E depois de tudo isso, você se perguntaria, pra que um disco ao vivo lançado tantos anos depois.

Duanne também é o guitarrista das gravações de At Fillmore East, que, juntamente com Dickey Betts, formavam um enlace perfeito para bases e solos impecáveis. Durante o passar dos anos, a Allman Brothers continuou na ativa, mesmo depois da morte de Duanne, tendo vários guitarristas no seu front, mas nunca com um line-up tão magnânimo quanto aquela época. Isso explicaria bem o lançamento.

Mas ainda é complicado. Com um encarte simples, nenhuma das músicas apresentadas no show da American University são inéditas. A qualidade da gravação é inferior – o trabalho de remixagem e remasterização da Deluxe Edition é exemplar – e nenhuma delas se sobrepõe as versões retiradas dos shows do Fillmore, não acrescentando em nada as inspiradas versões apresentadas no show do Fillmore. A culpa pode até não ser da banda, que autorizou o lançamento, pensando nos fãs mais ardorosos. Ainda mais hoje em dia, em que todo mundo está cansado de saber que banda ganha dinheiro com show e não com vendagem de disco, ainda mais ao vivo. E, um registro, oficial ou não, de um show interessaria, teoricamente, para os que estavam na platéia e queiram guardar como lembrança.

É Complicado. Complicado com “C” maiúsculo porque este álbum chegou as minhas mãos através do meu melhor amigo, que me emprestou o artefato com todo o entusiasmo. COMPLICADO.

Assista o vídeo de In Memory of Elizabeth Reed no Fillmore!!!


PARA TRAZER PAZ DE ESPÍRITO

Ben Harper & Blind Boys of Alabama

There Will Be A Light

2004

Unir tradição e revolução musical não é trabalho para qualquer artista. Mas, se tratando de Ben Harper, o assunto pode gerar essa improvável reunião. Para findar isso, ele se aliaou ao grupo de cantores Blind Boys of Alabama, e lançou no mercado em 2004, o premiado álbum There Will Be A Light. Nele, o músico californiano demonstra toda a sua bagagem religiosa e musical – rock, blues, jazz, reggae e principalmente gospel – temperado com o estilo refinado do afinadíssimo grupo vocal.

As gravações foram retiradas de duas sessões de estúdio, mostrando composições que trazem spirituals, cantos dos escravos negros do Mississipi, juntamente com o distinto e passional canto gospel. Ben Harper deixou de lado as distorções e produziu um álbum delicado, mas cheio de vida e swing. O timbre de seu Weissenborn – espécie de violão tocado sentado com um slide e corpo e braço ocos, feitos de uma peça só de madeira – rege as cores em ‘11th Commandment, um belo instrumental solo, em que o músico californiano deixa aflorar todo o seu sentimento. Além dos Blind Boys, que trazem um brilho forte para canções como ‘Take My Hand’, ‘Satisfied Mind, e a faixa título, Harper continua muito bem escudado pelos companheiros da Innocent Criminals. Marc Ford, ex-Black Crowes, é o guitarrista nessas sessões, e Jason Yates, além de contribuir com os teclados na banda, desenhou a arte gráfica do álbum. Com dez canções inéditas, e quase quinze pessoas nas sessões, apenas ‘Picture of Jesus, do álbum anterior, Diamonds on the Inside (2003), ganha uma nova leitura, mais gospel.

There Will Be A Light é um trabalho que carrega toda a emoção – cultural, musical e histórica – do povo negro americano. Suas raízes africanas, sua fé, seus sonhos e redenções estão expostos num álbum com um efeito pacificador na alma. Realmente trazendo um pouco de luz, para a escuridão que é o cenário musical no novo século.

Mais Ben Harper? Leia a resenha do álbum Lifeline clicando aqui!


COLETÂNEA DE INÉDITAS

RYAN ADAMS – Easy Tiger (2007)

Como um filho pródigo do country-rock, Adams ataca novamente com mais uma bolachinha, sendo um dos artistas que mais deve sofrer da síndrome da composição prolífica – Jack White compete com ele ponto a ponto – emendando um trabalho atrás de outro, entre uma turnê e outra. Férias não devem constar no vocabulário do caipira roqueiro.

Com faixas curtas, Easy Tiger pode figurar como uma coletânea de inéditas, pois o material deste disco parece conter um pouco de cada álbum que o músico vem produzindo desde o início desta década. Pearls on a String e Tears of Gold parecem terem saído do country Jacksonville City Nights (2005), enquanto Halloween Head e Two Hands poderiam figurar o outro extremo de Adams, como em Rock ‘n’ Roll (2003), cujo título já define o conteúdo. Dos soturnos Love is Hell (2004) e 29 (2006), as faixas Oh My God, Whatever, Ect e I Taught Myself How To Grow Old, que fecha o álbum, seriam as bolas da vez. Do primeiro álbum, o folk Heartbreaker (2000), um forte exemplo seria a bela Off Broadway. Já The Sun Also Sets e Goodnight Rose cairiam bem em Cold Roses (2005), que garantiria a taça de ouro de melhor álbum, se Adams não tivesse feito Gold (2001). A dobradinha Two e Everybody Knows poderiam ser lados B deixados fora do badalado álbum.

Provavelmente, Easy Tiger não vá figurar entre as mais celebres produções de Adams. O lançamento de 2007 se equilibra com o mediano Demolition (2002). Embora para iniciados, é tiro certeiro de agrado. Para quem não conhece, ou não tem nenhum álbum do americano, Easy Tiger é um bom motivo para começar a ouvir sem precisar mastigar álbuns mais complexos da carreira do filho de Jacksonville.

Mais Ryan Adams? O Discoteclando te fornece mais aqui!!!


O FILÓSOFO DO ROCK

ZAPPA – Detritos Cósmicos (livro, 2007)

Com as parcas investidas na literatura musical no país, há poucos lançamentos deste estilo que agregam a biblioteca dos interessados em música, afins de momento e fãs de carteirinha de determinados artistas. Apostando neste filão, a Editora Conrad está mais uma vez desbravando barreiras comerciais e põe no mercado uma ótima referência para tentarmos entender um pouco do complexo pensamento musical e sociológico do grande pensador-maestro-guitarrista-e-crítico-ferrenho-do-way-of-life-americano, Frank Zappa.

Capitaneado pelo jornalista Fábio Massari, especialista em música e um estudioso do pai da Mothers of Invention, o livro Detritos Cósmicos traz um apanhado de artigos, entrevistas e mais uma seleção da melhor e mais relevante safra do prolífico guitarrista e quase candidato a presidência dos EUA se não fosse sua morte prematura em decorrência de um câncer na prostata em 1993.

Zappa não pode ser rotulado como rock, jazz, ou qualquer outra segmentação. Do seu início com a psicodelia de Freak Out!!! passando por obras que mesclam o jazz mais quebrado e roqueiro do mundo (vide Waka-Jawaka e Hot Rats), até as viagens de pura tiração de sarro de vários outros álbuns – destaque para a pirada Baby Snakes, do álbum Sheik Yerbouti – os sons saídos da cabeça de Zappa são um mundo a parte na história da música contemporânea.

Além das palavras de Massari, o livro é recheado da vida e a sobrevida do narigudo músico através das viagens físicas e espirituais, visuais e auditivas em depoimentos emocionados, ilustrações e pirações de especialistas – em alta ou baixa escala – que provavelmente tentaram entender a cabeça do gênio, mas acabaram se rendendo a sua completa e complexa obra. Entrevistas obrigatórias fazem do livro um instrumento necessário para tentar desmembrar umas das cabeças mais malucas e criativas da música.

Depois desta maravilhosa introdução ao excêntrico universo de Frank Zappa, apesar de o livro conter grande material bibliográfico, resta a Massari começar a escrever a biografia brasileira definitiva deste gênio musical incompreendido.

Não conhece o Zappa? Então veja o que ele é capaz de fazer:


BEM-VINDO A COMPANHIA DE TOM PETTY

TOM PETTY
Highway Companion
(2006)

Tom Petty reaparece neste ano com mais um disco carregado de violões, em canções muitas vezes bucólicas e contemplativas, enquanto outras te fazem bater o pé ao seu ritmo.

Saving Grace abre Highway Companion dando uma amostra de como o blues pode ser modernizado sem perder sua essência. Os violões de Square One e Flirting With Time me passaram uma sensação de déjà vu, pois parecer terem saído do disco Wildflowers (1994). Tom Petty traz uma característica recorrente nas suas composições : refrões que grudam na cabeça e fazem até os mais timidos balbuciarem suas palavras. Esses refrões aparecem em Big Weekend, Night Driver, na já citada Flirting With Time e com o passar de várias audições você está cantando outros refrões sem perceber.

Down South é uma viagem de ônibus rumo as plantações de algodão do delta do Mississippi, os raios solares se degladiando com nuvens carregadas no céu, mas que parecem esperar o momento certo pra desaguar.

Roy Orbison, ex-parceiro de Traveling Wilburys, deve ter inspirado Petty em fazer Damage by Love. Enquanto Jack carrega uma levada climatizante, além de uma guitarra a la J.J. Cale. Outro companheiro de Wilburys, Jeff Lynne, aparece na produção do disco – que é co-creditada a Tom Petty e o inseparável Heartbreaker Mike Campbell – o que serve para abrilhantar o disco que leva apenas a assinatura de Petty. Mas a porção do tempero Heartbreakers começa ganhar maior destaque a partir de Turn This Car Around. O piano em This Old Town deixa sua marca, sendo uma das melhores faixas do álbum. O timbre da guitarra solo de Ankle Deep é surreal. Para fechar o disco, Petty registra The Golden Rose, que poderia muito bem ser uma faixa de The Last DJ, de 2001, e um dos melhores álbuns de Tom Petty and the Heartbreakers.

Highway Companion talvez por ser mais introspectivo não será um dos mais marcantes da carreira de Tom Petty, terá seus hits que serão figurantes em uma próxima coletânea, mas é muito mais radiofônico do que o é que considerado música boa para as rádios.


ENTRE O FOLK E O ROCK

Neil Young – Everybody Knows This Is Nowhere (1969)

Após lançar-se em carreira solo com seu primeiro álbum, o canadense Neil Young recrutou os músicos de uma banda chamada The Rockets para ensaiar e gravar em apenas duas semanas Evebody Knows This Is Nowhere, lançado em 1969, e garantir que esse registro entrasse para o grande mundo dos clássicos do rock. A química que rolou entre o guitarrista e os companheiros Billy Talbot (baixista), Ralph Molina (baterista) e Danny Whitten (guitarrista) foi de uma dose tão cavalar que, o nome da banda não poderia ser mais adequado: Crazy Horse.

Cinnamon Girl abre o disco dando amostras que a batida precisa do grupo seria a companheira perfeita para os delírios guitarrísticos de Young – sua marca registrada – e que reapareceriam ao longo do disco em Down by the River e Cowgirl in the Sand, que fecha o álbum num momento singular para todo o folk-rock da época. A voz cheia de angústia é paralelamente reconfortada pelo violino de Bobby Notkoff em Running Dry (Requiem For The Rockets), um contraponto com o resto do álbum que foi gravado praticamente ao vivo no estúdio. A música que dá título ao álbum e The Losing End (When You’re On), mostram que Young transpôs o som de sua antiga banda, a Buffalo Springfield, para sua nova empreitada. Round & Round (It Won’t Be Long) traz a participação da cantora Robin Lane, num dueto vocal com Neil, que parece desfocar da linha evolutiva do disco, mas ele mostra seu estilo inconfundível no violão e inspiração suficiente para não deixar a bola cair.

Produzido por David Briggs, o álbum permaneceu por quase cem semanas nas paradas americanas e é uma amostra do poder que o folk-rock exerceu na década de sessenta.


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